Naquela noite, construíram cabanas e lagos. Um poço de petróleo foi encontrado, mas a quantidade se esgotou tão rápido que não foi possível comercializar coisa alguma. Contudo, a notícia se espalhou, e logo os alojamentos passaram a ser invadidos quando os donos se ausentavam. No começo, não havia muito o que levarem, então levaram uma vassoura que lá se encontrava. Depois, a segurança foi reforçada: as portas foram vedadas com paredes internas, e virtualmente não havia entrada alguma - então como havia trãnsito de pessoas ali? Esse trânsito levou à construção de uma pequena riviera, um balneário e posteriormente um aeroporto. Depois, uma bomba atômica foi lançada e tudo perdeu-se. A vida é feita de altos e baixos, conquistas e recomeços.
Quando o mundo se iniciou, já aqui havia pessoas, e todas de muito boa índole. Aqui, no Instituo Mary Jane Poppins, todos vocês receberão os melhores cuidados possíveis. Não quero que pensem neste lugar como uma prisão, ou um local de tratamento - ao contrário: é um espaço de repouso, um spa, um local de férias coletivas da chatice do mundo lá fora. Aqui teremos diversas atividades recreativas, refeições deliciosas, contatos sociais saudáveis, além de um espaço para que vocês se expressem na totalidade de seus personalidades, sem julgamentos ou críticas. Quando o mundo se iniciou, já aqui havia pessoas, e todas de muito boa índole. Temos apenas uma regrinha aqui, bem fácil de decorar: nada de agressões. Fora isso, vocês são livres para irem a praticamente qualquer local do instituto, ou clube, como alguns de nossos clientes chamam. Sintam-se à vontade para requisitar qualquer coisa de nossos colaboradores, e inclusive para me procurarem, a qualquer momento. Estamos aqui para dirimir quaisquer dúvidas e proporcionar a vocês a melhor experiência possível, num ambiente tranquilo e confortável. Quando o mundo se iniciou, já aqui havia pessoas, e todas de muito boa índole.
Quando tudo se acabou, havia poucas pessoas, e a maioria não era flor que se cheire. QUal o seu nome? Quem são essas pessoas que vêm sempre te visitar? Por que você sempre fala essas coisas estranhas? Há quamnto tempo você está aqui? Você já foi até o porão? Por que você sempre inventa histórias tão mentirosas e confusas? Você acredita em Deus? Quantas vezes eles já te chamarem à sala dos quadros? De que forma você relaciona o paradigma literário da morte do autor às recentes manifestações anti-engajamento político pelo país? Como você acha que isso tudo vai acabar? Vocês já viu algum óvni? Hoje você recebeu quantos tokens? Quando tudo se reiniciou, apenas as pessoas verdadeiras estavam presentes, embora elas ignorassem as notícias dos jornais. Naturalmente era no pátio que ficava o lago. Não, claro que não! Era no porão! Você não sabe do que está falando! O lago era bem aqui. Onde? Em nossos corações.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
Ensaio de topografia celeste
Caminho da roça
Isso vai ser difícil...
Você quer desistir?
Não, não. Só estou comentando que vai ser difícil, mas estaremos juntos
Você pode desistir, tá?
Não vou desistir. Quero continuar. Eu adoro dificuldades, meu sobrenome é dificuldade.
Você diz isso agora...
Mas quem é que pode ter certeza do amanhã?
Então, amanhã você pode desistir?
Se você estiver comigo, eu não desisto. Eu não sei o que vai acontecer amanhã - foi o que eu quis dizer.
Não adianta consertar o que já está dito.
Olha em meus olhos, na moral. Me diz se esses olhos não te transmitem verdade.
Eu... não sei. Você é meio paranóico, eu tenho um pouco de medo disso.
Minha única paranóia é gostar de verdade de você
Gostar... de que isso adianta?
E eu por acaso tenho como evitar gostar de uma criatura como você?
Gosta, e mesmo assim, tem que calar
Há silêncios que são gostosos
Tudo pra você é uma piada?
Eu não fiz piada alguma!
Você não está levando a sério, essa é a verdade.
Levando a sério...
É, para de fingimento.
Eu nunca fingi, você sabe. Para todas elas eu menti, mas nunca pra você.
Nunca mesmo?
Nunca.
Certeza?
Eu já calei.
Tipo o quê?
Tipo... isso. Vem aqui.
Não, pára, eu não estou afim.
Hum.
Doooois...
Ha-ha... gracinha. Sabia que não vou te deixar voltar hoje?
Ai, que medo.
Rum! Eu sou terrível! Me considere captor, você está sequestrada!
E qual o resgate?
Sua confiança
Isso você vai ter que conquistar
E a mim? Quem conquista?
Quem conquista? Como assim?
Nada, esquece. Eu já vim aqui mesmo, o que rolar, rolou!
O que você quer dizer?
Que estou entregue.
Você tem coragem!
E você tem medo.
Tenho.
Ainda.
Ainda.
Por que?
Porque não quero que nenhum de nós se machuque.
Eu também tenho esse medo.
Então, por que veio?
Porque eu já te entreguei tudo. Você pode fazer o que quiser, inclusive me decepcionar, mas nada disso importa.
É essa a sua expectativa?
Não...
Não quero que crie expectativas.
Quanto isso? Eu nunca as tive
Bom.
Bom.
Rsrs.
Falou como eu
É, eu sei.
Então? Vamos? É perto daqui. Eu cuido de tudo.
E se eu acabar não querendo?
Está tudo bem. Sério.
Eu... acho que não quero.
Ok. Vamos virar a noite, então.
Tá doido?
Já viramos outras, ora!
White Dove
"A moça. A porta. O quarto. Aberta. Porta.
Quarto. Frio. Vazio. Sem moça.
A moça bela. A moça apressada.
A solidão apressada.
A dor da solidão. O frio nas janelas.
O quarto vazio.
A moça. A mão dela.
A chave. A chave na mão dela.
A moça. A faca. Sozinho agora.
A moça. No chão. Morta.
A moça. Nunca mais. Solidão."
Então... é isso? Roberto, os teus contos estão cada vez piores.
Charada
O que é, o que é? Que não se dá e não se compra, não se acha mas se perde, não tem tamanho e não se mede, não se implora e não se exige, não se cobra, não se guarda mas se gasta, não dura não se estraga, o que quem guarda não esconde, o que quem tem mais sente fome, o que se tem pra não ser seu, o que se perde quando se esconde, o que se ganha quando se dá, o que se dá quando se tem e não se tem que ter pra dar, o que nunca pode ser demais, o que se é de menos se esvai, o que se cala e mais aumenta, o se espera nos silêncios, o que não falta na ausência, o que é eterna paciência, o que faz ouvir silêncio em meio ao barulho, o que traz quietude em meio ao caos, o que se leva mesmo quando entregamos?
domingo, 1 de maio de 2016
Não sou seu amor
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Ovos quebrados
Eu quero muito te amar, me deitar com você, acariciar seu rosto, deixar o tempo correr... Temos dinheiro para isso. Temos a cabeça fresca, mas até agora, não pudemos gozar tudo o que nos é reservado. Sei que pode ter parecido que sim, mas foi pouco. E o que vamos viver vai valer toda uma vida de misérias, angústias, saudades, ciúmes, disputas, reflexões, críticas, sofrimentos fúteis, dores que poderiam ser evitadas...
Você sabe o que eu penso. Isto é, sabe como eu penso. Não sou cruel, não desejo o mal de ninguém, eu luto é pelo nosso bem, pela nossa felicidade. E infelizmente, só seremos plenamente felizes quando isso for feito. Talvez a vida tenha me feito secar, mas os sentimentos que estão aqui guardados, abaixo de toda essa casca ao meu redor, ainda são os meus, puros e castos como quando você me conheceu. Mas alguns ovos precisam ser quebrados para se fazer uma omelete. Eu quero que você quebre esse ovo. Chega de misericórdia e de lágrimas. As próximas serão só as de felicidade.
Espera, eu já volto. Daqui a pouco eu me deito, mas olha só isso. Eu não te disse que estava nesta gaveta todo esse tempo? Aqui, toma. Segura! Para de ter medo. Você quer isso ou não quer? Eu sei que quer tanto quanto eu. Chega de piedade, estamos nos ridicularizando cada vez que voltamos atrás. Isso precisa ser feito, não é precisa? Segura assim, ó. Quando chegar a hora certa, você saberá o que fazer e como usar. É até simples, na verdade. Não tem muito segredo. Você segura assim, depois faz desse jeito. Será bem simples. Quando isso terminar, você não vai nem acreditar no quando estava tornando isso desnecessariamente complexo. E aí, nós estaremos livres. Vamos sair de lá olhando apenas para o futuro. O carro estará lá, a porta aberta. Mas não quero fazer isso só. Você vem comigo, não vem? Você me ama? Mesmo? Quanto? E meu amor - nosso amor - não te dá a coragem de que precisa? O amor nos faz vencer os medos. Eu não vou te condenar e você não vai me condenar. Nós nos amamos e será lindo, faremos isso por amor. Vai dar tudo certo. Vai ser a nossa liberdade. Você vai fazer? Ótimo.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
CID
Tinha ou tem? Não sei. Estava puxando demais, trabalhando demais, exigindo demais de si mesma. Deve ter tido uma fadiga, um stress, um.. um troço. Pode até estar morta a uma hora dessas. Hahahaha. Me desculpe a crueldade, mas eu preciso te falar a verdade, não é? Ou você não quer saber de tudo?
Ela está lá, se ainda estiver viva. Você poderia ir visitá-la, mas não acho uma boa idéia, não. Se eu puder te dar um conselho, deixa pra lá. Se ela já está pra morrer mesmo, deixa morrer. O que você vai ganhar se preocupando? Você tem sua própria vida, não depende dela, ela não está te dando nada, não vale a pena passar nem mesmo uma noite em claro. Calma, na moral, eu só estou falando o que eu penso. É por amizade a você que eu te digo a verdade do que eu penso. A gente não pode salvar todo mundo. Let it go, let it be. Ela não precisa disso, de sua preocupação. Isso não vai ajudá-la a melhorar mais rápido, se ainda estiver viva. Aliás, nada vai, você não tem muito o que fazer. Não vai adiantar estar perto. É, você nem mesmo pode estar perto, você não pode nada. É triste que ela esteja sozinha numa hora dessas, não é? Mas deixa, foi o caminho que ela mesma escolheu, ninguém pode fazer nada. Deixa ela se virar, no final, acaba tudo sendo como tem que ser mesmo. Quem é você pra fazer alguma coisa? Nem heroísmo nem piedade, nem amor nem amizade, nem nada, na verdade, faz tanta diferença assim. Quando chega a hora, chega a hora, não tem muito porque você ficar assim, não adianta querer estar perto, vai por mim. Eu já te disse, não já? É trabalho perdido o teu. A gente tem que se preocupar é com quem está aqui ainda, com quem está vivo, e deixa os outros pra lá, cada um sabe de si. Ela não decidiu ir? Ninguém obrigou. Pois pronto! Ninguém aqui é criança, não. Você sabe que eu tenho razão. E no fundo… não, nada. Sei lá, é só que… no fundo, você não quer participar disso. Sua bondade não pode ser desintencionada assim. Você não teve essa santidade antes, por que teria agora? Você quer ir, vá. Você sabe dos riscos que vai correr. Sei nem se ela vai querer te ver, quando acordar. Você também não esteve por perto quando ela precisou. O que você quer agora? Recuperar o tempo perdido? Retomar a coisa de onde parou? Remoer os velhos ziguezagues? Sai dessa. Ela tomou uma decisão. Meio suicida, eu concordo, mas tomou, e a gente deixou, não foi? Se ainda fosse antes, eu era a primeira pessoa a correr lá pra ajudar, mas ela não quer mais ajuda de ninguém, quer mais é nada. Está bancando a fortinha, a independente? Ótimo, ela que se vire só. Eu falei dos riscos, da responsabilidade, das consequências, das perdas inevitáveis, você também. E agora está aí, vai e não vai, morre e não morre. Eu quero mais é sossega pra minha cabeça. E tem mais, vou lhe dizer logo: ela já estava morta antes de morrer. Não adianta ficar com raiva, você já entendeu que bem pode ser verdade que ela tenha morrido. Defunta e pronto. Vai deixar nada, só lembranças, e mesmo assim, em pouca gente, que nem era todo mundo aqui que gostava dela. Tanto que ninguém correu a ajudar semana passada, e não vão agora também. Lá é uma terra de gente má, você sabe. Agora, enxuga essas lágrimas e vamos comer, por favor. Eu me cansei disso tudo.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Cachorro, rato, barata
Eu não tenho o direito de pensar, nem de agir, tampouco de reagir. Não posso ser, apenas fingir. Fingir que sou a rainha. Rainha? Rainha de quê? A rainha nua? Só se for! A rainha obrigada. Me perguntaram se eu queria esse reinado? Perguntaram nada. Isso é reinado? Ham!, isso nem é vida!
E ai de mim se discordar! Sou uma exilada de minha própria vida, fugida de mim, desde que tomaram conta de mim. Tentei fugir, mas não houve jeito. Houve súplicas, ameaças, e um certo despotismo disfarçado de poesia. Era música o que eu ouvia? Não, era um decreto de um dono, rei, imperador. Era valsa o que eu dançava? Não, era um carrossel hipnótico, uma espiral para baixo, um pião girando, e eu, brinqueda.
Eu caí.
Mas eu cansei deste faz-de-conta, desta noite sem fim. Me erguerei, farei passeata, farei protesto, serei black block. Agora eu serei a heroína. Motim, golpe de estado, revolução: serei dona de minha própria vida. Chega de Valsinha, de Chico, de João e Maria, de ditadura, de mentira, de ser criança e inocente. Chega de ser cachorro, rato, barata.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Depois da partida
Cara, eu chego a ter pena dessa garota.
Pena? Por quê? O mundo é assim mesmo, ela deveria saber onde estava pisando. Bobeou, dançou.
Vai dizer que você não sente nem um pouco de remorso?
Remorso? Não, não sinto não. Ela é uma guria legal, eu gostei dela. Nesses meses, pude ver que ela tem qualidades, tem muitas coisas que fizeram a mulher lá gostar dela, mas o que que eu posso fazer? Os morcegos se alimentam é de sangue, rapaz. Você está com peninha, é? Sossegue que os anos de lida vão te fazer mudar essa cabecinha.
Não senhor, não se preocupe. Vixe! Logo eu, me meter a besta de abrir o bico? Eu não, que eu não sou doido.
Rum, sei. Então vamos embora logo, buscar nosso quinhão.
É, demorou pra vir mesmo.
Cuide disso de uma vez, Roberto. Isso já foi longe demais.
Silêncio. Isso é tudo o que eu preciso agora. Preciso que você saia, agora. Me deixa sozinho, pra ver o que eu vou fazer com isso.
Parece fácil quando se olha de longe, mas isso não é literatura, não é fácil, não é belo, não é prazeroso, não é mágico ou qualquer coisa assim. Não caia nas armadilhas que plantam por aí, não é simples. Se fosse, seria sempre tudo muito bonito, mas raramente o é. Você é uma criança ainda, não compreende nada disso. Isso tudo está muito além da sua parca compreensão. Eu amo você, mas é inegável que você não poderá me acompanhar. Você ainda tem muito o que aprender, e eu temo que não venha a ter o tempo ou a perspicácia suficiente. De qualquer forma, eu precisarei ir e terei que te deixar aqui. Por algum tempo, estará sozinha e se sentirá mais só do que estará, mas fique tranquila, isso vai passar.
Você tem os seus créditos, claro; fez coisas muito importantes por aqui, mas você não é imprescindível, e é preciso que você vá. Sentiremos sua falta, e... principalmente eu. Mas só vou chorar por agora. Eu nem precisava estar chorando, porque eu já havia me preparado pra esse momento. Você, não. Você é quem deveria chorar, mas você não chora. Por dentro, deve estar tão machucada quanto eu, mas é assim mesmo, eles são todos uns falsos e se você ficar, será pior. Te sugarão até você morrer. E se você demorar, te empurrão de um metafórico penhasco, pra que você morra de uma vez.
Cansei disso também. Mas eu ainda preciso desse silêncio. Daqui a pouco vou falar com você, mas essa é a minha jornada. E eu duvido que você compreenda isso plenamente - quer saber? Dane-se! Você não pode entrar e pronto, me deixa em paz. Amor não é sinônimo de pegajosidade, tenha paciência!
Vejamos... Uma história de amor, de emprego, casa, trabalho, estudo, balé, secrataria, telefonemas, recepção... O que eles querem, afinal? Não pode ser só isso, não faria sentido. Morte? Por que eles a querem morta? Droga... é só isso. Essa parte nós já sabíamos, mas vacilamos em ter descartado tão cedo. Portanto, é inevitável que você pegue um vôo para Buenos Aires, e vá falar com Alice. E o pior é que não temos como avisá-la de sua chegada. Bom, se você não a encontrar, saberá procurá-la. Nesta bolsa tem dinheiro suficiente pra você roda toda a argentina atrás daquela paranóica. Não, não preciso que você opine, eu só estou falando, você sabe como eu sou.
Vejamos... Uma história de amor, de música... era uma vez uma banda que se desfez muito prematuramente, pois cada um teve que tomar seu próprio rumo, indo morar em cidades diferentes, por motivos diferentes. Me fala a verdade, o que foi que aconteceu lá? Eu devo acreditar no que você já me disse?
Bondade... não haverá bondade alguma. Mas já sabíamos disso, não é verdade?
Ok, você não quer fazer igual ao que você viu antes, mas eles não querem nada diferente disso, então acho que você deveria rever suas expectativas e... e perspectivas.
Eu voltei só pra te dar um último beijo, antes de você ir.
Provavelmente ela não se deu conta de que foi nosso melhor beijo. Ela estava abalada demais com a partida pra perceber qualquer coisa, era só lágrimas.
Então? Você cuidou de tudo? Como foi? Ah, é? Tudo bem, eu já esperava que não viesse a ser fácil pra você, mas estou orgulhosa de você. Agora vamos poder recomeçar tudo, de onde paramos, rever nossas falhas, entrar nos eixos. Sem cobranças mais, dessa vez todos vamos nos ouvir.
domingo, 8 de junho de 2014
Convidamos a
Não, eu não sou essa boa samaritana. Aquela é outra, eu sou diferente. Eu sou apenas uma convidada, entre muitos convidados. Afinal de contas, isso aqui não é sobre mim, nunca foi, nunca será. O meu lugar não é aqui, mas mesmo assim, eu amo a mulher que está ali se casando. Ela me ajudou muito nas horas mais difíceis e eu devo muito a ela, tanto que nem mesmo desejando toda a felicidade do mundo eu poderia pagar. Se eu e--
Oi! Achei que você não viria! É, eu estava fora quando recebi o convite, mas eu precisava vir te ver chorar e te dar um abraço. Você veio só por mim? Sim, eu não podia perder a chance de te desejar -- Mas eu fiquei sabendo que é muito perigoso, por q--
E aí, cara? E aí, beleza? 'Cê num bebe não? Dificilmente, sabe como é. Mas bebei e comei, hoje é dia de comemorarmos. À morte de quem?
Morta. Não tem mais jeito. Ela está morta. Foi terrível, ninguém esperava. Acho que até agora ninguém conseguiu entender como foi que isso aconteceu. Estava tudo indo tão bem! Ela estava tão feliz! Sinceramente, eu não acho justo. Uma pessoa tão boa, que não fazia mal a ninguém, acabar desse jeito. Logo agora que ela estava realizando tantas conquistas, tanta coisa. Estava acontecendo muita coisa boa pra ela, e agora acaba assim, morta, de repente.
Hahaha. Eu nunca faria isso, estava apenas brincando. É que ultimamente ando com esse senso de humor mórbido, sabe?
Desgraçada! Você roubou tudo o que eu tinha e isso eu nunca vou perdoar! Você tomou tudo o que era meu, tudo aquilo pelo que lutei anos seguidos. Você destruiu os meus sonhos, destruiu o minha vida, o meu futuro, o meu mundo. Eu não tenho mais nada, eu não posso viver assim. Você não sabe o tamanho da dor que eu estou sentindo, mas você vai saber, você tem que saber, porque não é justo que você saia impune de tantos crimes, sua vil! Você é uma pessoa extremamente baixa, imoral, sem um pingo de escrúpulos, e ainda assim acha que vai se dar bem? Pois não comigo! Não comigo! Você irá me pagar tim-tim por tim-tim tudo o que me fez nestes últimos anos, nem que eu tenha que cobrar à força!
O meu mundo parou. Eu n--
--sta união, que fale agora ou cale-se para sempre.
Oi, boa tarde. O que você tem de mais forte aí pra enxaqueca?
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
Plano B
Preocupe-se. Aliás, preocupe-se muito. Isso não vai acabar tão sendo. Não são apenas contas a acertar, é um gigante que foi despertado. São todos magnatas, com todo o dinheiro e poder para te esmagar e o farão, tão logo sintam que você os incomoda de qualquer que seja a forma. Se você tiver um lugar seguro onde se esconder, recomendo que vá para lá o mais breve possível e espere a poeirar baixar por aqui, porque o bicho vai pegar. Quando as coisas sossegarem por aqui, eu te enviarei notícias. Enquanto isso, faz o que eu te digo e protege tua vida. Guarde suas forças para a hora da batalha decisiva. Nesse meio tempo, ignora os alarmes, os sons das bombas, as metáforas obscuras, o alarido, os cães farejadores, a perseguição desenfreada, os recursos cada vez mais escassos, a falta de outros combatentes viris, e se concentra só na tua elevação, nos teus objetivos, na quantificação dos dados, no estudo das coisas terrenas e freqüentes, de forma fenomenolológica e faz uma Aufklärung. Tem um sistema de coisas que precisa de você, mas de você com vida e saúde e energia, não em pedaços, com a morte pairando como urubu sobre teu cadáver em qualquer sargeta ou campo de batalha de xadrez. Avisa aos outros - ou melhor, não avisa ninguém. Sai de fininho, na calada da noite, enquanto ainda é seguro, porque eles vêm como ladrões, sem hora avisada.
É difícil dizer quem é o certo e quem é o errado. Num segundo momento, poderemos discutir culpas, não é meu objetivo aqui. O que eu realmente quero é que vocês canalize vossa interior em direção às suas mãos, e estendam-nas a seus parceiros. Ao terceiro toque, voltem para seus parceiros. Relaxem, deixe a música fluir de seus poros. Libertem-se de si mesmo, abram-para encontrar o outro e encontrar a si mesmo. Lembrem-se: seu parceiro é seu refúgio. Busquem o vosso refúgio na hora da necessidade e o encontrarão. Agora, toquem a palma de seus parceiros. Isso. Respirem fundo. Lembrem-se de que a respiração é tudo, é deixar flui, é o fluxo da energia. Deixem que a energia penetre em vossos corações e compartilhem esse bem-estar com o vosso parceiro.
Novela mexicana
Dejà-vú noir
Domingo no parque
De longe
Branca de Neve
Uma mulher louca
Casa
Surto psicótico
notificados a apresentarem o roll de testemunhas
Lista
Minha doce pianista
Tenho certeza de que abri os olhos, mas a cabeça doía e tive que fechar, ou, se estavam mesmo abertos, eu não enxergava de verdade. Então fechei os olhos, mas a imagem se fixou na minha mente e comecei a me perguntar sobre o que vi: era um teto de hospital? Eu estava num leito? Soube quando ouvi o som de uma enfermeira andando pelo quarto, anotando coisas numa prancheta, acho que sobre meu despertar. Logo em seguida entrou outra enfermeira, de cabelos profundamente lisos e sem brilho, e saiu depois de trocarem duas frases que não pude entender.
Quando ele entrou, eu não sabia se o conhecia, mas sentia como se, e temi que tivesse perdido a memória. Tentei falar, mas estava cansada demais e quase não notei que não tinha o que falar e que uma palavra sequer saíra de meus lábios ociosos. Ele me parecia familiar, como se o conhecesse desde a infância, mas o seu rosto era também uma novidade. Parecia preocupado, mas sua presença me deixou calma. Dava pra notar que estava alegre, mas contido, talvez ainda sem saber o que fazer, assim como eu. Ficou me olhando um pouco, e depois que ele saiu, comecei a olhar as nuvens. Minhas pernas doíam... eram nuvens muito parecidas com essas de agora. Brancas, leves... sinto inveja delas, que são livres, que não estão presas, que passam tão desapercebidamente, que nem a dor nem a alegria percebem, e assim podem ser completas, da forma delas. Mal sabem que irão se dissipar... As nuves de agora já são outras, apesar de deslizarem lentamente pelas águas acimas dos céus. Essas podem parecer o que eu quiser, mas sempre saberei que aquelas outras estiveram ali. Nunca me esquecerei delas. Ele começou a explicar que dirigia muito rápido, e só parou de se justificar quando se cansou de teimar em assumir n/o que sua gentileza não lhe permitia ter dolo. Seu olhar era bondoso, era o que me importava.
Quando ele me levou pela primeira vez ao apartamento, não pude notar muita coisa. O lugar parecia limpo e inabitado há tempos; a luz do sol entrava branca e sem pedir licença, pelas janelas escancaradas; era espaçoso, tudo era grande, tudo podia ser grande, ser perfeito, a sala podia ser linda, e nem quero falar das fotos nos porta-retratos, que eu não queria olhar. Eu só puder ver uma coisa: o piano à minha frente. Era realmente um piano de calda, imenso, pré-histórico, como o leão em que a menina monte aos oito anos. De repente o mundo parou, e eu parei de respirar, em respeito a ele. Me aproximei devagar, no que parecia uma eternidade, por mais rápido que eu viesse a andar. Nos olhamos... eu sorri sem saber que sorria, e sem saber que tocava com as pontas dos dedos, que acariciava em saltos as teclas pretas... tudo nele transparecia ser grande, operístico, e carente. Me surpreendi um instante ao notar que não ouvia som algum, e depois me assustei quando o dedo médio fez soar a primeira nota. Estava estabelecido o primeiro contato, mas ainda suspeitava de que ele poderia morder minha mão...
Todas as tardes eu ficava ansiosa para vê-lo, me comunicar com ele, saber o que ele tinha de novo. Era como uma voz vinda de outro universo, que se misturava à minha. Eu não compreendia realmente aqueles sons, apenas ficava enlevada, como ter um filho pela primeira vez, como cumprimentar o dia e a noite chegando, como tocar o paraíso amando de verdade, em vinte segundos de prazer eterno. Eu me sentia viva, cada nota trespassando cada fibra de meu ser, cada molécula de meu perispírito... ali residiam todas as emoções, todo o conhecimento da humanidade, todo o amor, toda o beleza, todo o bem, tudo de bom, tudo. Um dia cheguei até mesmo a ouvir a frase "minha doce pianista." Foi a melodia mais bela que já ouvi.
Uma noite ele me levou a um parque, ou circo, não me lembro bem. Havia muita gente, e devo ter visto uns dois ou três conhecidos, mas não havia outra pessoa em quem eu quizesse me aprofundar. Compramos algodão doce e depois nos centamos, olhando as pessoas passarem. Vi uma felicidade nelas, radiante, como se eu pudesse participar das coisas boas que haviam acontecido no dia de cada uma. E o seu número se estendia ao infinito, até o horizonte, até onde minha vista alcançava, e tudo o mais era o céu. No céu límpido, as estrelas pareciam finalmente acordar em formar constelações. Eu não sentia o perfume das pessoas, apenas respirava a pureza do ar bom e fresco. Na minha imaginação, há um mundo quase infinito, onde adoro mergulhar, e ficar como aquela noite: aproveitando sem pressa os momentos de gozo da alma. No pensamento somos livres, como as nuvens, iogues. As coisas podem ser tão ou mais verdadeiras que na realidade, tudo de bom ou de ruim pode acontecer. O algodão doce parecia feito de nuvens, feito de amém; eu me sentia realmente nas nuvens, e meu cobertor devia ser bordado de estrelas. Me lembro de olhar para elas e perguntar se estariam vendo a minha felicidade e alegria. As convidei para tomar parte e me senti agraciada, visitada, quando uma delas caiu, tentando vir até mim, até meu reino dos céus. Me apressei em desejar que minha vida inteira fosse sempre aquele contentamento lancinante de eflúvios. Depois desejei ter saúde física para poder aprovetar as dádivas e...
Eu já te contei do acidente?
Sabe, tenho pensado muito, ultimamente, no conto do sábio chinês.
Folhas no chão
Minha promessa de campanha é de ser jardineiro do teu coração. Deixe de ter medo e se arrisque um pouco, se abandona em mim, deixa-se libertar disso tudo. Dormir sem roupas, nadar sem roupas, etc, etc, etc.
A casa era linda. Parecia um canteiro de obras, é verdade, escadas pra todo lado. Mas dava até um certo charme. As folhas caídas por todo o chão. Árvores no quintal vizinho, muros baixos. Na frente tinha um espaço que poderia ser uma garegem, se não fosse tão exíguo de largura. O portão de ferro era amarelo claro. Ficamos um bom tempo no tanque do ínfimo quintal, conversando. Depois, murmurei alguma coisa e fomos para o chão. Creio que pra sala. Ficamos horas abraçados, perdemos a noção do tempo e já anoitecia quando reinauguramos o chuveiro para nos recompor e sair. Quando saí do banheiro, a procurei pela casa e encontrei no quarto, segurando um porta-retratos, concentrada. Sabia que eu estava na porta e não me olhava. Vi sua expressão mudar. Me olhou, com lágrimas nos olhos e o queixo trêmulo. Eu a abracei sem olhar o porta-retratos, sem dizer nada. Enquanto saíamos, todas as ruas me pareciam iguais, com seu jeito provinciano calmo, com as árvores perto das casas, os muros elegantemente enfeitados e simples. Um bairro agradável. Mas agora era noite e estava diferente. Você ficou uma mão sobre o queixo, o cotovelo na janela, olhando talvez a estrada que passava, as árvores que pareciam se repetir. A estrada agora era mal-iluminada. Eu pus a mão em sua coxa e logo encontrei o calor de uma mão magra e macia. Eu a apertei mas logo a soltei para engatar uma marcha. Encostei, conversamos um pouco, depois saímos e ficamos olhando as estrelas, sem nos abraços. Eu reparei que você não queria sentar sobre o capô e não sentei também. Depois namoramos ali, de pé, e ficamos abraçados sentindo o contraste do vento frio noturno e dos nossos troncos entra-aquecidos...
Não quero saber de seu passado nem falar do meu. Vamos dormir apenas, e amanhã falaremos sobre o que vai ser de nossas vidas. Se amanhã você ainda quiser ir morar lá, nós iremos. Mas amanhã faremos as malas, só amanhã.
Eu sinto uma dor aqui dentro, bem aqui, quando você faz isso. Dá vontade de chorar, parece que o mundo vai acabar, eu rezo pra que passe brevemente, e Deus me atende. Fico me perguntando porque faz isso comigo, se não vê que está me machucando. Creio que meus apelos não adiantam, então, me quedo como uma boneca de pano e deixo você pintar e bordar comigo. Tenho alguma esperança de que você mude. Engulo tudo calada pra que não soframos... Eu... Você me machuca muito quando faz isso. As palavras doem. Se você lesse meu pensamento agora! Mas não lê, não lê nada, não percebe meus sinais... você é cego. Eu te amo, seu bruto. Você é pessoa com quem mais me importo nesse mundo. Pára de falar um pouco, pára de falar pelo amor de Deus, estou ficando maluca com tua voz. Você nunca se cala! Meu Deus! Porque não me beija de uma vez? Aí você veria que te amo tanto quanto você diz me amar, talvez até mais. Se não te provo, é pra não te fazer sofrer. Você está falando tão alto e nem sabe. Cala a boca, por Deus. Eu te amo.
...porque é só isso, no fim das contas. Amor. Quando a gente aprende a amar, como eu te amo, aprende que é livre pra ficar triste, mas também pra se livrar dessa tristeza. Se você acredita mesmo no que falou, vai saber do que estou falando quando digo que te amo.
Você não sabe de nada, seu bobo.
Limítrofe
Eu estou pensando em me mudar pra ela e nada vai me impedir. Só me falta assinar os papéis, não adianta. Você esperava que eu fosse implorar? Você não me deu um motivo, eu não deixei de lhe pagar, foi totalmente injusto. Eu não sei o que estava se passando pela sua cabeça, mas também já não me importa mais saber. Quer saber? Você tem sua chave já, então, me deixe em paz.
Sim, querido. É linda! Rsrs Nós vamos poder ver assim que ela chegar. Você vai ver que coisa mais bonecosa. A não ser que já tenha visto. Você a viu por aí, ao redor? Ótimo... isso quer dizer que temos algum tempo. Vem, deita aqui no chão comigo. Ei! Estou esperando, não vou lhe puxar nem implorar, me ame agora ou nunca mais.
Porque você estava tão diferente hoje? De que forma? Ah, não sei, pensativa. Não é nada. Não é nada que queira me contar?, é isso? Como assim? Se você não quiser me falar, tudo bem, respeito, mas saiba que quero saber. Se te faz ficar assim, é importante pra mim.
A coragem é o alicerce... de quê mesmo? Não importa, é falácia, assim como a alegria ou a esperança o serem da paz. Pode ser verdade, pode ser mentira; as pessoas não vão atrás pra saber, elas engolem porque parece verdade. Eu não sou de meias-verdades, vou lhe contar tudo o que aconteceu essa tarde. Senta.
Como eu ia dizendo... eu nunca tive muito coragem. A coragem não vem de mim, eu não seria nada sem Deus. Mas não é só Deus que nos dá a coragem... desculpa eu estar chorando... estar hesitando.
Há um momento em que toda a sua vida passa como um flash. Chamam de momento da morte. Mas isso me ocorre o tempo todo; o tempo todo ocorrem coisas que mudariam minha vida para sempre, para bem ou para mal. Eu já consigo reconhecer quando acontece, como agora, e você não vai me enganar. Nem me enganar de novo. Eu posso ler nos seus olhos, vejo os seus gestos medidos, sei o que você quer. Eu gostaria de lhe pedir que fosse embora, mas eu não tenho coragem. Daqui a alguns segundos vou me levantar e vou embora eu mesma. Não estou afim dessa palhaçada toda, não tenho paciência, sou muita crescida para isso.
O quê? Como você tem coragem de me perguntar uma coisa dessas? E ainda diz que me ama! Faz pouco de mim! Eu não assinei os papéis, pode ficar tranquilo, se era isso o que tanto queria, mas não me peça pra ficar contento com isso. Posso até aceitar, mas nunca vou me esquecer do que você está fazendo comigo. Eu vou lhe perdoar, você sabe, mas não devia fazer isso. Preciso ficar sozinha agora. Não se preocupa, não vou fazer nada que você não queira. Afinal, não é assim sempre?
Comprei! Só falta pintar! Se quiser, podemos pintar amanhã, porque eu não queria contratar ninguém. Oh, meu amor! Você não existe! É tão bom que você tenha concordado comigo! Eu nem sei como agradecer o anjo que você é pra mim. Antes, eu achava que você ia ficar com raiva, ou triste, sei lá. Mas é muito bacana que você tenha aceitado numa boa e entendido assim. Agora, mudando de assunto... de que cor você quer pintar?
Eu não disse que sim e nem disse que não. Você me ouviu emitir alguma opinião? Eu fiquei em silêncio porque você sempre faz o que quer, e novamente fez. Não me culpe por isso, você teve chance pra pensar e não fazer. Pois agora, se vire, arque com as conseqüências. Escuta, eu amo você e já lhe protegi muito por cause disso, mas dessa vez não irei proteger. Você precisar passar por isso só. Sei que é inteligente, vai conseguir dar um jeito. Se precisar que eu faça algo, posso até fazer, mas você decide como vamos sair dessa. Você não é adulta?
Não estou diferente, é só impressão sua. Estou pensativa com relação ao que fizemos. Tenho medo de ter a maior besteira da minha vida. É, você tem razão, a maior eu já fiz. Essa pode ser a segunda maior... Não é medo, entende? É só que... eu não sei se estou pronta pra isso. Você vai ficar comigo? Se disser que vai estar ao meu lado, eu sei que podemos ajeitar tudo. Mas mesmo assim, não me sinto segura.
O medo não é o oposto da coragem. Coragem não é não ter medo, é tê-los e enfrentá-los. Quem não tem medo, quem não tem um segundo de hesitação, nunca viveu.
Está feito. Consumato est. Não tem volta. Não tem, não tem, não tem, não pode ter, não é possível. Meu Deus! Vou enlouquecer! Preciso parar de pensar nisso. Eu... não posso. Quer dizer... talvez até possa. Posso. Mas eu não consigo, não consigo! Porque é tão difícil? Eu devo estar fazendo drama à toa, pode não ser isso tudo. É só eu relaxar e parar de pensar. Mas para como? Não posso parar, eu não consigo. Porque não tem volta? O que posso fazer se não há o que fazer? É só pensar, agora. Está feito. E agora? O que vou fazer? Esquecer! Preciso é esquecer. Não consigo. Consigo. É só esquecer. Não consigo.
Tudo bem? Eu a machuquei? Não, está tudo bem. Tem certeza? Sim, foi maravilhoso. Nem sei porque estou chorando. Eu sei, mas não precisamos saber. Me abraça? Tá bom, vem cá. E agora? Agora nada vai mudar. Não, vai mudar tudo. Desculpa ter dito aquelas coisas... eu não queria te machucar. Você não me machucou, eu já disse. Eu não sabia como fazer isso, entende? Está tudo bem. Não, eu sei que não está, você está chorando. São lágrimas de alegria, meu amor. Vê? Estou sorrindo! Eu não queria que tivesse feito nada por mim. Rsrs. Ela é linda, não é? Sim... é a coisa mais linda do mundo. Me perdoa pelo que eu disse hoje à tarde, tá?
Você falou. Você podia ter hesitado. Mas você falou, e isso não me machucou. Foi lindo, aliás.
Traga dois, por favor. Hoje estou com muita fome. Rsrs. Está pronto mesmo pra me ver comer de verdade?
É sobre o que você me disse ontem
Sobre isso de metade que eu queria falar... porque eu acredito em nós, acredito que podemos nos fazer bem... Mas você não confia ainda em mim. E eu tentei sublimar isso, mas, sem que você entregue tudo, como eu faço, eu não me sentirei segura nisso. Eu preciso que você seja a minha segurança, entende? Então... você pode me dar tudo ou não? Eu não quero limites entre nós, eu não posso continuar sabendo que não te tenho por completo, porque eu te dei tudo. Tudo.
Você tem tanto medo de me machucar. Mas você não entende que eu não tenho mais meda da dor, o que me dói é o seu medo. Nós somos diferentes... A minha dor não é sutil, mas não quero que me poupe, porque está ================ que devemos seguir, mesmo com a dor. Não podemos fingir que seguimos, mudar de assunto. Olha... eu tou aqui, não tou? É porque eu confio. Então, só falta você. Ei... Onde você está?
Você é maior do que essas questõezinhas... o meu afeto por você é maior... você acha que eu quero trocar tudo o que conquistamos?
Ei, vem comigo. Vem logo.
Vou te pedir uma coisa. Só faremos uma vez.
O mar ondula sua línguas contras as paredes, fazendo subir um cheiro doce e morno, fazendo voar uma núvem úmida sobre o casal. A noite é fria, alegre e calma.
Eu me sinto tão ligada a você! Fica comigo
O casal dança ao som das ondas, uma de suas trilhas sonoras, interpretada divinamente pelo ventro aguado de Iemanjá.
Enquanto os fogos disparam no céu em sincronia com a voz vinda do oceano, o casal dança uma música que só eles podem ouvir, com seus corações se acalmando e marcando o ritmo. Ela o perdoa, e pra lhe mostrar isso, pela primeira vez, despe seus pés para ele, em público, abandonando os calçados, mesmo sabendo que irá querer esquecê-los.
Eles deitam as cabeças aos ombros, e um sopro másculo assenta e dorme sobre a pele do pescoço dela. Seu coração está quente e suas mãos, geladas. Ele beija seus dados e a abraça mais forte, sentindo os pêlos do antebraço dela tocar seu pescoço, pensando consigo no quanto é grande o carinho que sente por aquela mulher, por seu misto de receio e entrega, por sua vontade infantil de querer ficar mais. Tomado por um afeto quase paternal, ele acaricia as pontas dos dedos o seu crânio. Agradece a Deus por não necessitar falar para ser compreendido. Lamentou por um instante a tristeza que ainda havia nela, na qual ainda não tocara, e se prometeu novamente cuidar dela como ela merecia.
Sabe porque eu me permito me chatear com você? Porque sei que nada pode mudar o que gosto em você.
A música aumentou, e eles dançaram até o mar cobrir suas cabeças, até serem um só, ele, ela, o mar, e a música.
