segunda-feira, 13 de abril de 2015

Cachorro, rato, barata

Cachorro, rato, barata. Cachorra, pessoa, cobra, verme, minhoca. Que sou eu? Um ser humano? Um bicho? Uma escrava?

Eu não tenho o direito de pensar, nem de agir, tampouco de reagir. Não posso ser, apenas fingir. Fingir que sou a rainha. Rainha? Rainha de quê? A rainha nua? Só se for! A rainha obrigada. Me perguntaram se eu queria esse reinado? Perguntaram nada. Isso é reinado? Ham!, isso nem é vida!

E ai de mim se discordar! Sou uma exilada de minha própria vida, fugida de mim, desde que tomaram conta de mim. Tentei fugir, mas não houve jeito. Houve súplicas, ameaças, e um certo despotismo disfarçado de poesia. Era música o que eu ouvia? Não, era um decreto de um dono, rei, imperador. Era valsa o que eu dançava? Não, era um carrossel hipnótico, uma espiral para baixo, um pião girando, e eu, brinqueda.

Eu caí.

Mas eu cansei deste faz-de-conta, desta noite sem fim. Me erguerei, farei passeata, farei protesto, serei black block. Agora eu serei a heroína. Motim, golpe de estado, revolução: serei dona de minha própria vida. Chega de Valsinha, de Chico, de João e Maria, de ditadura, de mentira, de ser criança e inocente. Chega de ser cachorro, rato, barata.

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