domingo, 8 de junho de 2014

Convidamos a

Deus criou os céus e o mundo e dividiu as águas e terra em seis dias. Depois disso, e apenas depois disso, meus filhos, Deus colocou o ser humano na terra. O homem veio depois para que pudesse desfrutar das maravilhas da criação, para que pudesse, por meio de sua alegria, se aproximar de Deus. Assim, homem e mulher devem caminhar juntos, trilhando o maravilhoso caminho da criação que anseia pelo amor de seu criador. Mas a vida humana não é feita apenas de delícias. Nosso senhor também colocou pedras em nossos caminhos, espinhos em nossas rosas, para que, sabendo-lhe a dor, possamos valorizar o prazer. Meus filhos, não pensem que o casamento é apenas um mar de pétalas de rosas. Não, ele é também um mar de espinhos, como deve ser uma rosa completa, com sua cor e o seu perfume. Mas Deus, que nunca nos desempara, além de estar sempre conosco, nos põe ao lado da pessoa que mais nos amará e ajudará em nossos momentos de dor, de fraqueza, de humanidade, de humana fraqueza. Que vocês possam conservar consigo o amor de Deus em vossos corações nas horas de angústia, e assim, consolar a quem lhes consola, amar a quem lhes ama, perdoar a quem lhes perdoará. Lembrem que o amor que vocês sentem é apenas um reflexo do amor de Deus, uma pequena gota do amor do nosso senhor, e que esse amor será sempre suficiente para manter a vossa chama de fé acesa, desde que estejam sempre com a cabeça erguida e os olhos abertos. Dessa forma é que aquilo que Deus une nunca pode ser separado pelos homens. Os sentimentos que habitam em Deus, esses são eternos, e o laço que hoje será atado é uma continuação deste amor divino, manso e humilde, sincero e casto, mas também verdadeiro a ponto de oferecer a verdade quando ela for necessária, oferecer a mão, mas também a palavra direta, quando esta for neces--

Não, eu não sou essa boa samaritana. Aquela é outra, eu sou diferente. Eu sou apenas uma convidada, entre muitos convidados. Afinal de contas, isso aqui não é sobre mim, nunca foi, nunca será. O meu lugar não é aqui, mas mesmo assim, eu amo a mulher que está ali se casando. Ela me ajudou muito nas horas mais difíceis e eu devo muito a ela, tanto que nem mesmo desejando toda a felicidade do mundo eu poderia pagar. Se eu e--

Oi! Achei que você não viria! É, eu estava fora quando recebi o convite, mas eu precisava vir te ver chorar e te dar um abraço. Você veio só por mim? Sim, eu não podia perder a chance de te desejar --  Mas eu fiquei sabendo que é muito perigoso, por q--

E aí, cara? E aí, beleza? 'Cê num bebe não? Dificilmente, sabe como é. Mas bebei e comei, hoje é dia de comemorarmos. À morte de quem?

Morta. Não tem mais jeito. Ela está morta. Foi terrível, ninguém esperava. Acho que até agora ninguém conseguiu entender como foi que isso aconteceu. Estava tudo indo tão bem! Ela estava tão feliz! Sinceramente, eu não acho justo. Uma pessoa tão boa, que não fazia mal a ninguém, acabar desse jeito. Logo agora que ela estava realizando tantas conquistas, tanta coisa. Estava acontecendo muita coisa boa pra ela, e agora acaba assim, morta, de repente.

Hahaha. Eu nunca faria isso, estava apenas brincando. É que ultimamente ando com esse senso de humor mórbido, sabe?

Desgraçada! Você roubou tudo o que eu tinha e isso eu nunca vou perdoar! Você tomou tudo o que era meu, tudo aquilo pelo que lutei anos seguidos. Você destruiu os meus sonhos, destruiu o minha vida, o meu futuro, o meu mundo. Eu não tenho mais nada, eu não posso viver assim. Você não sabe o tamanho da dor que eu estou sentindo, mas você vai saber, você tem que saber, porque não é justo que você saia impune de tantos crimes, sua vil! Você é uma pessoa extremamente baixa, imoral, sem um pingo de escrúpulos, e ainda assim acha que vai se dar bem? Pois não comigo! Não comigo! Você irá me pagar tim-tim por tim-tim tudo o que me fez nestes últimos anos, nem que eu tenha que cobrar à força!

O meu mundo parou. Eu n--

--sta união, que fale agora ou cale-se para sempre.

Oi, boa tarde. O que você tem de mais forte aí pra enxaqueca?

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

Plano B

Você resolveu esquecer, mas eu não. Eu não tenho mais paz, não tenho mais chão nem paciência. O ar parece me faltar - eu tenho medo de morrer de verdade. Morrer vítima da verdade. Testigo verum. Truth victime.

Preocupe-se. Aliás, preocupe-se muito. Isso não vai acabar tão sendo. Não são apenas contas a acertar, é um gigante que foi despertado. São todos magnatas, com todo o dinheiro e poder para te esmagar e o farão, tão logo sintam que você os incomoda de qualquer que seja a forma. Se você tiver um lugar seguro onde se esconder, recomendo que vá para lá o mais breve possível e espere a poeirar baixar por aqui, porque o bicho vai pegar. Quando as coisas sossegarem por aqui, eu te enviarei notícias. Enquanto isso, faz o que eu te digo e protege tua vida. Guarde suas forças para a hora da batalha decisiva. Nesse meio tempo, ignora os alarmes, os sons das bombas, as metáforas obscuras, o alarido, os cães farejadores, a perseguição desenfreada, os recursos cada vez mais escassos, a falta de outros combatentes viris, e se concentra só na tua elevação, nos teus objetivos, na quantificação dos dados, no estudo das coisas terrenas e freqüentes, de forma fenomenolológica e faz uma Aufklärung. Tem um sistema de coisas que precisa de você, mas de você com vida e saúde e energia, não em pedaços, com a morte pairando como urubu sobre teu cadáver em qualquer sargeta ou campo de batalha de xadrez. Avisa aos outros - ou melhor, não avisa ninguém. Sai de fininho, na calada da noite, enquanto ainda é seguro, porque eles vêm como ladrões, sem hora avisada.

É difícil dizer quem é o certo e quem é o errado. Num segundo momento, poderemos discutir culpas, não é meu objetivo aqui. O que eu realmente quero é que vocês canalize vossa interior em direção às suas mãos, e estendam-nas a seus parceiros. Ao terceiro toque, voltem para seus parceiros. Relaxem, deixe a música fluir de seus poros. Libertem-se de si mesmo, abram-para encontrar o outro e encontrar a si mesmo. Lembrem-se: seu parceiro é seu refúgio. Busquem o vosso refúgio na hora da necessidade e o encontrarão. Agora, toquem a palma de seus parceiros. Isso. Respirem fundo. Lembrem-se de que a respiração é tudo, é deixar flui, é o fluxo da energia. Deixem que a energia penetre em vossos corações e compartilhem esse bem-estar com o vosso parceiro.

Novela mexicana


Lava-se a roupa e pensa-se em amor. Amor em muitos sentidos: tanto o substantivo abstrativo quando o verbo intransitivo. Ah, e no Pablo Neruda, falando de lavar roupas... ê, Neruda!

Não sou poeta como você. Quem dera fosse! Escreveria um monte de coisas pra te mostrar como você me faz sentir, como tem feito diferença pra mim. Mas nem todos são como você. Olha, a vida me enrijeceu, me colocou cascas, como uma cebola, eu sou hoje uma cebola: muita casca e não chora, só faz chorar. E o silêncio agora também faz parte de mim. Eu não quero mais dizer nada, eu me cansei de todas as palavras, me cansei de elas não serem levadas em conta, eu só quero me sentar e calar e ver a bagaceira rolar. Se eu fizesse poesia, você acharia bonito, mas como nem tenho outro jeito de dizer, não usarei meias palavras: a verdade é que me importo muito com você, muito mesmo. Não é só que voc~e me faça bem, é que eu aprendi a me preocupar com você, a pensar em você, a me importar, de forma que hoje faz muita diferença... quer dizer: você faz muita diferença. Eu gostaria de dizer coisas bonitas pra te convencer, mas não sei como. Olha, eu não quero você vá. Eu me afeiçoei tanto a você, eu estou te amando, e acho que seria bom para todos se você ficasse. Ao menos por um tempo, enquanto as coisas se ajeitam, só pra vermos como tudo vai ficando... enfim, fique um pouco mais. Eu fiz um prato que você adora. Adivinha o quê?
Certo, certo, vamos à sinceridade. Eu parei. Eu não ficarei mais insistindo nessas coisas que não dão certo. Trás muita frustração e pouco dinheiro. A gente energia demais, se desperdiça à toa, endoida, e depois fica a ver navios, fica tendo que se alegrar com o pouco, fingindo que é muito, supondo que é o bastante, mas não é. Eu tentei, juto, eu caí de boca, eu investi pesado, doei meu tempo, meu suor e meu sangue. Tive algumas recompensas e algumas frustrações, não me arrependo, mas preciso parar. É melhor do que ficarme vitimando pelo destinado que assumi ou me assumiram, então é melhor sair dessa, se não vai levar a nada. Eu não tenho mais condições, eu quero voltar. Você aceita?

Olha, é um lugar horrível, você nem queira pensar. Todos querem morder todos, é um oroboros, cobra comendo cobra. Às vezes me arrependo de ter entrado, mas já entrei. Todo mundo pensa que vai ser um mar de rosas, não é? Mas só quem está dentro sabe o que se passa. E não se engane, pensando que é isso é porque estou com alguma expectativa frustrada, porque eu não estou, estou até bem, estou conseguindo realizar tudo a que me propus. Mas a duras penas, sabe? Você pensa uma coisa e a realidade é outra. Então, se você é feliz assim, continue feliz, goze muito, não queira beber da enxurrada, o sistema é bruto, a chapa é quente, o bagulho é louco, o clima é neurótico, é uma piração total. É um loucurinha boa, também, mas não vale a pena. Se você confia em mim, se acredita que só penso no melhor pra vocÊ, que só busco isso, não venha. Eles não vão pegar leve com você, se você vier. Aliás, sendo você, pegarão é pesado, muito pesado. Nós já discutimos isso antes, mas agora estou usando de toda franqueza. Antes, eu achava que você entenderia, mas ou não passei clareza ou você não levou a sério, mas não entre nessa jogada. Quando o sol se põe, você cai de exaustão, achando que vai morrer, e todo dia é assim. E o pior é que pode morrer mesmo, a qualquer hora. É isso?, é essa vida que você tá querendo levar? Tome tento, ora! Você acha que é melhor, que vai conseguir se dar bem? Eu estou te avisando: não tem nada de feérico. Não compre gato por lebre, fique por aí mesmo.

Então, no final das contas, decidi aceitar. Me deram tudo, me prometeram o céu, e eu tive todo o apoio necessário. E quanto a você, talvez seja a quem eu mais tenho que agredecer, porque você tornou isso possível, me apoiando, me incentivando, não deixando eu perder o foco. A minha gratidão será eterna, uma dívida impagável. Você merece tudo de melhor da vida, hoje eu vejo que eu me enganei sobre você, fiz mal juízo. Me desculpa por tudo, tá? Sei que já brigamos muito, já fomos parar até no hospital, no necrotério, mas agora isso tudo é passado. Eu estou afim de esquecer, e se Deus quiser, vamos continuar sempre assim como estamos, e cada vez melhor.

O quê? Então é assim? Ok, mas saiba que de agora em diante, você morreu pra mim. Eu achei que você era totalmente diferente, mas agora vejo como a gente se engana com relação às pessoas. Mas eu não sou de ferro, tudo tem limite. Você sabia das conseqüências,  você mergulhou, então, me esquece, nós acabamos por aqui. E se você tiver alguma coisa nova pra falar, que eu ainda não ouvi, diga agora, porque eu não tenho mais nada pra te dizer. Nem voltarei a olhar pra tua cara.

Você não tem piedade de mim. Acha que eu fiz de propósito, que eu sabia o que aconteceria. Acha que eu queria ter tudo, mas não era bem assim. Eu só fiz o que minha natureza mandou, e se é errado ser assim, então me desculpe por ser, mas eu não tenho o que fazer. Eu não vou mudar, eu não quero. Eu posso arcar com as conseqüencias, mas você - justo você! Você deveria ter mais coração! Mas agora eu vejo que eu não significo nada pra você, você nunca se importou de verdade, apenas me usou. Você usa todo mundo. Eu nem sei quem você é de verdade.

Você não tem piedade de mim. É isso que gosto em você. a sua crueza me agrada, porque sei que é o que você pensa no fundo. Se você está dizendo, então tudo bem. É assim: se você disser que o céu é vermelho, eu acreditarei. Eu posso não entender como, mas que ele é vermelho, é. Você pode continuar assim, isso só me faz bem. Eu nunca precisei da sua piedade, mesmo. Eu sou forte, sei viver sem isso. Aliás, é justamente o contrário o que eu preciso. Você pode ficar, se você quiser. Eu adorarei ter a sua compania.

Eu vim porque não tinha pra onde ir. E eu lembrei que só você me estendeu a mão, quando precisei, antes. Eu sei que já tivemos melhores momentos, mas eu não tenho onde ficar. Eu não tenho mais ninguém. Me aceita.

Pára, assim você vai me fazer chorar.

Dejà-vú noir


E quando eu não te condenar
É que eu já não me importo mais
Mas tu que é minha vida e paz
Desejo pura sem sinais

Desejo não ter que culpar
Embora tenhas sido audaz
Se o tempo então voltasse atrás
E os passos desfazendo o andar

Teria eu estado lá?
Teria eu dito ao menos ai?
Seria um dejà-vú noir?

Iria não ter forças pra
Sentir bem menos que hoje? Ah...!
Seria um deà-vú noir!

Domingo no parque


1. Antônia senta-se na praça e apoia-se no banco com as duas mãos para trás. Ela parece relaxada, chega a fechar os olhos, talvez para melhor sentir o sol no rosto. De vez em quando olha no relógio, mas não parece preocupada com a hora; é como se fosse um hábito. Chama um vendedor de  picolés (ela parece gostar muito de picolé) e compra dois. Uma criança mal-vestida e pobre passa com a mãe, ela dá o picolé à criança, diz alguma coisa à mulher, que lhe aperta a mão e passa. Hoje ela não tira caderninho ou caneta da bolsa, apenas se senta e cruza as pernas. Parece cantar. Brinca com folhas da árvore ao lado caídas no banco. Por um momento, parece dormir. Tão despreocupada assim, não seria de admirar que cochilasse. Ao lado, uma discussão entre dois homens se inicia, mas ela apenas vira a cabeça pra olhar e logo volta a se concentrar em seus pensamentos, a cabeça abaixada, as mãos no colo. Mexe no cabelo que o vento forte desarruma, mas não parece preocupada em caprichar. Um idoso chega, senta ao seu lado e tenta puxar assunto, mas ela não o conhece, não lhe dá muita atenção; logo outro velho chega, conversam em voz alta, ela parece se incomodar, mas os homens saem. Um inseto a pica. Mexe na bolsa e tira dela um repelente; depois de passá-lo, ajeita o cachecol (ou será lenço)? Não parece estar esperando ninguém. Se espreguiça, tentando disfarçar. Procura com os olhos o homem do sorvete, depois fica olhando-o. Em seguida, pega a bolsa, se levanta e sai.

2. Às vezes desejamos certas coisas que, quando realizadas,vemos que não são bem o que desejamos. Achoque comigo foi assim. Uma decepção. Não uma decepção, mais uma... eu já estava esperando, eu torcia, mas sabia que podia não ser tão bom. No fundo, eu sabia. Quer dizer, achava. Mas a gente tem que arriscar, afinal. É... não me arrependo de ter arriscado, foi até bom. Se eu não tivesse arriscado, nunca saberia, ia passar a vida me perguntando. É melhor viver que ficar pensando, mas quando as experiências não são tão boas quanto na idéia da gente. Se bem que tem coisas que são. Esse emprego novo, por exemplo... era tudo que eu precisava. Atévoltei a sentir meus pés formigarem, isso sim é prazer, sim senhora! Ê, coisa boa! E aposto que nem tem a ver com o prazer, no fim das contas, deve ser psicológico, como dizem, a... carga mental? Como é que diz? O arquétipo, a representação, é isso: é mais o que significa pra mim. Estou me realizando, rsrs, como se eu tivesse um potencial, e ele tivesse que inevitavelmente ser despertado - e desejadamente. Acho que já vivi muito pra saber o que é certo e o que é errado, o que é bom ou não, e o que vale a pena. Mas se eu não vivesse, ficaria desejando ter tentado, me perguntando como seria. Como Deus é bom comigo por me deixar errar - obrigada, Deus! - e como eu sou... má. Má, por ficar me torturando, má comigo mesma, e isso é o pior de tudo, porque ninguém pode me defender, é até injusto, e eu preciso começar a ser justa comigo mesma... admitir meus desejos... admitir essa sede, ai que sede! deve ter sido o picolé, mas tava tão gostoso, se eu chupar outro ficarei com mais sede? cadê o vendedor, ah... tá muito longe. Sinal de que o outro picolé não era pra mim, mesmo. Mas também, um, dois, tanto faz, todos são picolés, são unos, um já é o bastante mesmo. Taí, estou aprendendo a me contentar. Deve ser porque eu vivia buscando... mas tem certas coisas que não estão dentro da gente, no fim das contas. Nem tudo pode ser buscado dentro de nós mesmos. Já me esqueci do que eu tava pensando antes do picolé. Melhor eu aviar e ir-me embora logo

3. Que será que ela está fazendo agora? Eu não devia ficar me preocupando, ela já é bem grandinha, mas eu me preocupo. Ah!, eu sou mesmo assim e pronto! E também, é preciso: quem sabe onde ela está agora? Se metendo em confusões do barulho, conhecendo gente nova e perigosa, lamentando talvez - coitada! Deve estar sozinha agora! Vendo televisão, na certa! Se entediando mais do que eu - eu me entedio porque fico me preocupando à toa, é que nem novela, se eu vivesse a minha vida, não iria ficar me preocupando com a vida alheia. Se bem que ela tem juízo. E alguma maturidade, também, ela tem. Quanto será que ela está pagando? Se ela estiver tendo problemas com dinheiro, não vai dizer nada, é orgulhosa, vai descobrir uma maneira, ela sempre descobre, eu já saquei como ela é, quando decide, vai fundo. Talvez eu devesse ligar pra ela. Ou não, melhor deixar ela viver em paz, ela que me ligue, se quiser. Se bem que já era hora, ela já devia ter ligado. Mas tudo bem, deve estar ocupada. E isso é bom, não é? Quer dizer, ela deve estar se ocupando muito, deve estar correndo de um lado pro outro, sem tempo, aposto que nem tem tempo pra descansar. Coitada! Ela precisa de um descanso, trabalha demais... não sei como agüenta, e não sei pra quê, não se enrica trabalhando mesmo. Se bem que ela tem seus motivos. Vai morrer de estafa, um dia! Eu podia cozinhar uma massa pra gente, ligar pra ela, pra ver se ela tira um tempinho pra relaxar, será que anda comendo direito?

De longe


Espera, eu quero escutar o que estão falando, então, não diz nada.
Mas não estamos muito longe?
Um pouco, mas se nos calarmos, podemos conseguir escutar. Não custa nada a gente tentar.
Mas nada disso é da nossa conta... deixa discutirem, não conhecemos ninguém mesmo.
Mas ouvi algo que me chamou atenção.
O quê?, um nome?
É, um nome. Acho que é o nome da mulher que está de pé.
E o que você acha? Acha que pode ser ela?
Não sei, mas é bom descobrirmos logo. Se for ela, será interessante ver no que é que isso vai dar.
Você ouviu o nome dela?
Acho que sim... parece que é ela mesmo. Olha o jeito dela se vestir, e de gesticular. Não há dúvida. Daqui, não tem outra.
Não sei, acho que você pode estar se enganando. As pessoas são muito parecidas...
Mas tem que ser ela!
Você é que está querendo que seja ela! E não é porque isso que vai ser. Vamos esperar virar para cá, e talvez descubramos.
É, isso. Xi...! Ela está vindo pra cá!
Você acha que ela ouviu algo?
Duvido muito. Acho que nem percebeu que estávamos conversando. E acho melhor a gente se separar.
Certo. Mas antes disso, você viu quem ficou?
Vi, mas depois a gente fala. Se liga!

Branca de Neve


Espelho, espelho meu... Diga: você sabe quem é essa tal de Branca de Neve, que os camponeses dizem ser mais bela que eu?Mas, o que ela tem, afinal?

É pálida, é morta, é mole, é tíbia, sua voz é frágil, seu olhar é doce, suas mãos são frias, seus pés são leves, seus cabelos são curtos, suas faces são respingadas, sua boca é móvel, sua carne é macia, seu andar é incerto, seus quadris são níveos, seus braços são finos, seus músculos não têm firmeza, ela não come por prazer, ela não ergue o olhar,ela obedece ao que ouve, ela diminui o passo, ela se concentra no detalhe desnecessário, ela tinge o inatingível, ela corre sem respirar, ela não perde a calma quando deve, ela não sabe pisar forte, ela não impressiona, ela não compra, não vende, não cobra lucros, não espera respostas, não deseja vantagens, não insiste em perguntas, não quebra as regras, não esconde as cartas, não faz cara de pôquer, não fecha os olhos, não dorme tarde, não sabe beber, não sabe amar, não sabe arranhar, não sabe sorver, é fraca para desejar, é tímida para pedir, é fácil para implorar, é feita para agradecer, é clara quando toca-lhe o sol, não sabe se esconder quando a noite cai, reflete a parca luz que as estrelas trazem, não guarda um sorriso para a hora apropriada, não rouba, não mente, não assalta, não finge, não se decepciona, não tira conclusões apressadas, não cobra, não range, não rosna, não manda, não cheira, não prova, não toca, não olha, não percebe, não faz truques, não sabe temer, não sabe fugir, não sabe estacar, não bate o pé, não teima, não pirraça, não grita, não xinga, não chora, não se surpreende, não odeia, não cospe, não humilha, não sabe dar esmolas, não sabe quando chega a hora, não tem o torpor, não tem a carícia selvagem, não tem um final, não tem um seio farto, não prefere nenhum prato, não espirra, não tem mau-hálito matinal, não baba, não se despenteia, não sabe apertar, não sabe pressionar, não sabe ameaçar, nem intimidar,  não sabe se impor, não esquece objetos, não bate ou tropeça, não deixa nada cair, não erra ao se vestir, não derrama o leite, não usa borracha, não embola palavras, não ri entre dentes, não fica entediada, não arranja desculpas, jamais quer cair, jamais quer esquecer, jamais quer fugir, jamais quer sofrer por querer, não reprime uma mágoa, não sabe não perdoar, não tem uma ruga, não tem uma veia, não fica com olheiras, não mostra cansaço, não tropeça no salto, não perde a hora, não perde as chaves, não perde o fio da meada, sua meia-calça preta não desfia, o vestido não amassa, o olhar não vaga, o ouvido não bisbilhota, os dedos não buscam, os pés não acariciam, as costelas não estalam, a carne não formiga, a garganta não seca, os olhos não ardem, não sente coceira, não sofre picadas, não come pimenta, não arqueja, não sabe travar, não tem a malícia, não aproveita a ocasião, não rouba ou arroga, não precisa lamentar, não teme a noite, não teme o dia, não sua, não treme, não espirra, nãopigarreia, não fofoca, sabe quando mudar de idéia, não sabe quando sussurrar, não se exalta, não se ruboriza, não tem do que se envergonhar, não sangra, não sente dor, não pede mais, não negocia o fim, não procura o começo, não admite não suportar, não pede para parar um pouco, não sobe, não desce, não engorda, não emagrece, não sabe suspeitar, não sabe ferir, não sabe culpar, não sabe se indignar, não sabe não ser, não sabe disfarçar, não pode mudar, não quer aprender, não deseja ter mais, não cobiça, não exagera, não engole, não se arrisca, não se toca, não se despe, não se queima, não traz cicatrizes, não perdeu, não matou, não forçou, não deixa fluir, não dança, não cede, não fala demais, não tem um passado, não exige presentes, não recusa as provas, não corrige os erros, não troca, não se engana, não tem preconceitos, não tem vícios, não tem manias, não tem tiques, não tem crises, não mudar de humor, não dá espaço, não busca prazer, não receia morrer, não tem espinhas, não precisa se perfumar, não seduz, não atrapalha, não zomba, não se cansa, não polemiza, não perde tempo, não gasta tempo, não comenta sobre o tempo, não faz convites, não bebe mais um chá, não entra, não fuma, não se embriaga, não quebra, não mostra, não rejeita, não tem sede, não tem necessidades, não se envaidece, não interpreta mal, não esquece o termo, não deixa pra depois, não brinca, não espera demais, não frustra ninguém, não se rebela, não cria rótulos, não deixa de anotar, não inventa currículo, não sabe adular, não abre o olho, não se envaidece, não se engasga, nunca ronca, não tem ciscos, não se corta, não se lasca, não engole sapos, não diz boas verdades, não muda desvia olhar, não se faz de tola, nunca mendiga, nunca se gaba, nunca exagera, jamais teve arma para se proteger, jamais colou, jamais trapaceou, jamais pediu perdão, jamais teve que admitir, jamais sentiu fome, jamais passou sono, nem febre, nem delirou, nem fantasiou, nem se questionou, jamais duvidou, jamais teve que desistir, jamais teve que se sacrificar, jamais teve que parir, jamais teve que se sobrecarregar, jamais fez escolhas difíceis ou erradas, jamais falhou em provas impossíveis, jamais jogou dinheiro fora, jamais se arrependeu amargamente, jamais ficou sem saber como resolver, jamais teve de pedir ajudar, jamais ficou sem saber como ajudar, seus lábios não se racham, em seus ouvidos nunca houve água, nunca sentiu dor-de-cabeça, nunca ficou tonta, não caiu, não desmaiou, não salivou, não sentiu nojo, não perdeu o chão, não tirou o ar, não demorou mais do que devia, não quebrou um braço, não puxou cabelos, não ficou trancada, não lançou um olhar enviesado, nunca esqueceu de pagar, não fez pergunta de leigo, não causou problemas tentando ajudar, ela não tem traumas, é saciável, não anseia a folga do trabalho, não comete um erro, não comete um pecado, não exagera, não fica por baixo, não fica em segundo, não deixa de cumprimentar, é sempre saudável, tem sorriso um sorriso, sempre dá atenção, sabe de tudo, compreende tudo, o que veste lhe cai bem, recebe aplausos, recebe presentes, protegem-lhe da chuva, dão-lhe indulgência, retiram-lhe as ratoeiras do caminho, guardam para ela a última fatia, servem-lhe o melhor vinho, prestam-lhe favores, aprendem seu idioma, copiam suas maneiras, compram seus produtos, atendem aos seus caprichos, fecham negócios com ela, agradam-lhe, sugam-lhe tudo, sufocam-lhe, repisam sua beleza, maldizem sua conduta, elogiam sua letra, arrancam sua pele, revolvem sua feridas, escamoteiam sua vida, afastam-lhe de seus amigos, mancham-lhe o nome, descarregam sua energia, abusam de sua bondade, escarnecem de sua inocência, criticam sua decência, ignoram sua ciência, torcem por sua ruína, riem de sua sina, aumentam os seus fardos, diminuem seu farnel, quebram-lhe os óculos, pisam-lhe nos dedos, esbarram em seus ombros estreitos, empurram-lhe disfarçadamente, cozinham-lhe em banho-maria, fritam-lhe o cérebro, matam-lhe a vontade, moldam sua individualidade, manipulam sua opinião, regam-lhe com vinho do porto e servem-lhe à moda da casa, admirando-se de sua tez alva, de seus lábios de romã e de seu cabelo preto-breu.

Odeio essa Branca de Neve. Não suporto o seu nome, nem a sua beleza. Quero-a morta de vez, para sempre. Pago o que for preciso pelo seu coração em minhas mãos. Eu quero o coração dessa mulher

Uma mulher louca

uma mulher louca? entao é isso que eu sou pra voce? voce nao tem o menor respeito pela minha pessoa...
voce sai sem se despedir, com uma cara quase zangada...
fiquei algum tempo internada na ala psiquiátrica sim, vi como me olhavam, e quer saber? nao é muito diferente da forma como voce olha da porta... é um olhar indescritível, mas comose nao sentisse nada...
o que voce realmente sente por mim?


Casa


Casa, casa, casa, quem casa quer casa. Quem não casa também quer. As pessoas precisam residir, sendo isso geralmente em casas. A casa é uma construção civil e nada tem demais enquanto não se torna um lar. É isso o que se busca quando se busca uma casa: nem é uma casa, mas um lar.

Foi com esse intuito que vim parar aqui, modesta e intimidada, mas aberta aos raios de sol, assim como minhas janelas. As antigas viviam fechadas, como eu bem gostava e gosto e gostarei, mas desde que eu queira, as abro. Aqui e ali vejo um pardal pulando e pulando, vindo beber e se banhar.  E só falta uma banheira, porque até as roseiras já tenho. Roseiras incipientes, uma com flores vermelhas e outra com rosas rosas. Penso em plantar laranjas, mas não encontro espaço.

Ônibus lotado. Trânsito parado, engarrafado. Engarrafado como eu, dentro duma lata de sardinha que balança e me deixa enjoada. Tonta e zonza. Tem também o sono e o cansaço, que mais do que físico, é mental. Escrever não é moleza, ainda mais sobre o trânsito, política, ruas, moda, economia, chatice, chatice, chatice, dinheiro, bolsa de Nova Yorque, bolsa de madame, bolcheviquistas, o aumento do preço do pão e outras coisitas más. Aí, alguém vem me pedir pra escrever sobre mim, e eu digo que não, que não quero continuar a escrever sobre tudo isso que citei. Isso tudo faz parte de mim. Ah, e o trânsito. Esses ônibus parecem umas latas velhas. Aí eu levo um ano inteiro até chegar em casa, e nem tempo tenho de curtir o meu aconchego. Recebo uma ligação e não quero sair, prefiro ficar em casa, assistir a um filme, fazer nada até vir o sono e ulalá, dormir na cama ou dormir no sofá. Mas essa pessoa que me ligou quer que eu saia do meu mausoléu de algodão, quer que eu vá pra lá, vá pra cá... E eu não quero. Quero nada disso não. Não quero receber ordens, nem sugestões, e nem quero trocar uma idéia - já tenho a minha. Quero dormir, que eu estou com sono. Queria um abraço também, mas se não tiver, está tudo bem também. Eu disse que não e a tal pessoa disse que estou ficando renitente.

Renitente é a vovozinha com renite. A minha casa é antiga, deve ser do século passado da minha avó. Não sou renitente, só não quero sair hoje. Porque eu tenho que sair se quero ficar em casa? Em meio a isso, cambeei pro lado, quase caindo do sofá no chão, comecei a rir e a pessoa riu, um pouco sem graça. Adoro ouvir esse sorriso. Era disso que eu precisava. Agora sim serei eu a fazer o convite. Mas sei lá... Vai que... Bom, você vem aqui hoje? Ah, eu sei que tá, mas aí você dorme aqui. Pois então, melhor ainda, já que estou te convidando pra dormir no meu confortável sofá-cama Drago. Rsrsrs eu sei que não é, mas confortável ele é sim. Vem.

Pois então, temos um pardal, temos o trabalho lá no jornal, temos o sofá e temos a dúvida cruel: o que fazer com essa combinação de peças, se meu pardal não vem pular por cá?

Apesar de conter os olhos e aguçar os ouvidos, Fantazo me reclamou e Hipno me carregou. Me vi digitandp, frente a um teclado indefinido, o que parecia ser o maior texto da minha vida, e talvez o texto dela toda. Me dando conta, pensei em escrever o futuro. Mas dele, tudo o que pude imaginar era a laranjeira, e a roseira incipiente com suas rosas rosas amadurecendo em cor. Saí e me sentei na calçada, pra olhar o dia passar. E por mais incrívelmente lúdico que parecesse, me apareceu uma borboleta (ó, sonho campesino!) amarela e preta, namoradeira de nariz e sumideira assim do nada. Resolvi escrever sobre a tal borboleta.

Acordei com o toque da campainha. Ao abrir, ninguém estava à porta e me assustei, me deitei e cochilei. Concluí que fora delírio hípnico. E na preguiça fiquei. Ao me virar, o esperado, tão, me abraçou, me beijou, me amou, me invadiu e assumiu, acampou-se em meu peito, esmagou-me as mãos, jogou-me no chão e fez-me abrir a boca e suspirar, sem saber o que dizer. Suspirei e suspirei, como nunca suspirei, e sentia que morria e morria cada vez mais, sem medo e sem dor. Só alegria, como se eu fosse o tal lar e o meu pardal resolvesse vir se banhar no chafariz, com suas peninhas eriçadas. Não me lembro de mais nada.

E me acordei perguntando o que fora sonho ou real. Me lembrei de segurar as asas da borboleta, soltá-la, verificar seu pó em meus dedos e pensar comigo  que logo não haveria vestígios dele, como não havia. E vestígio nenhum havia, exceto a luz ainda mortiça pré-aquecendo a casa. E aí, é banho, trabalho e luta, saudade, casa, lar, onde o coração estiver.

Surto psicótico

os advogados e a família disseram que amoça teve um surto psicótico.
o objetivo é recolher o maior número de armas, com o apoio da populaçao.
o risco de um novo paraguai (pandemia?)
cinco pessoas ficaram feridas e o que seria denodado?
notificados a apresentarem o roll de testemunhas


Lista


Leite condesenado
Açúcar/ sal/ farinha/ f. de trigo
*vermouth
manga/maracujá
Laranja
Maçã
Pera
Mamão/*sorvete?
Calcinha
Vestido novo
pó base?
Camisinhas
Cds/velas/essências/sais

Exames U, V, T, G

Montante:
Poupança
+salário
Bicos?
Gastos fixos
Gastos plausíveis
----> contas
Incrementos
Pessoais

*não esquecer de passar no banco

Minha doce pianista

Confesso que tenho um pouco de grafomania sim, como devem ter as pessoas que "têm" tanto juízo quanto eu. É bom pra desabafar meu desgosto de/em não poder passear por aí desde que aconteceu.

Tenho certeza de que abri os olhos, mas a cabeça doía e tive que fechar, ou, se estavam mesmo abertos, eu não enxergava de verdade. Então fechei os olhos, mas a imagem se fixou na minha mente e comecei a me perguntar sobre o que vi: era um teto de hospital? Eu estava num leito? Soube quando ouvi o som de uma enfermeira andando pelo quarto, anotando coisas numa prancheta, acho que sobre meu despertar. Logo em seguida entrou outra enfermeira, de cabelos profundamente lisos e sem brilho, e saiu depois de trocarem duas frases que não pude entender.

Quando ele entrou, eu não sabia se o conhecia, mas sentia como se, e temi que tivesse perdido a memória. Tentei falar, mas estava cansada demais e quase não notei que não tinha o que falar e que uma palavra sequer saíra de meus lábios ociosos. Ele me parecia familiar, como se o conhecesse desde a infância, mas o seu rosto era também uma novidade. Parecia preocupado, mas sua presença me deixou calma. Dava pra notar que estava alegre, mas contido, talvez ainda sem saber o que fazer, assim como eu. Ficou me olhando um pouco, e depois que ele saiu, comecei a olhar as nuvens. Minhas pernas doíam... eram nuvens muito parecidas com essas de agora. Brancas, leves... sinto inveja delas, que são livres, que não estão presas, que passam tão desapercebidamente, que nem a dor nem a alegria percebem, e assim podem ser completas, da forma delas. Mal sabem que irão se dissipar... As nuves de agora já são outras, apesar de deslizarem lentamente pelas águas acimas dos céus. Essas podem parecer o que eu quiser, mas sempre saberei que aquelas outras estiveram ali. Nunca me esquecerei delas. Ele começou a explicar que dirigia muito rápido, e só parou de se justificar quando se cansou de teimar em assumir n/o que sua gentileza não lhe permitia ter dolo. Seu olhar era bondoso, era o que me importava.

Quando ele me levou pela primeira vez ao apartamento, não pude notar muita coisa. O lugar parecia limpo e inabitado há tempos; a luz do sol entrava branca e sem pedir licença, pelas janelas escancaradas; era espaçoso, tudo era grande, tudo podia ser grande, ser perfeito, a sala podia ser linda, e nem quero falar das fotos nos porta-retratos, que eu não queria olhar. Eu só puder ver uma coisa: o piano à minha frente. Era realmente um piano de calda, imenso, pré-histórico, como o leão em que a menina monte aos oito anos. De repente o mundo parou, e eu parei de respirar, em respeito a ele. Me aproximei devagar, no que parecia uma eternidade, por mais rápido que eu viesse a andar. Nos olhamos... eu sorri sem saber que sorria, e sem saber que tocava com as pontas dos dedos, que acariciava em saltos as teclas pretas... tudo nele transparecia ser grande, operístico, e carente. Me surpreendi um instante ao notar que não ouvia som algum, e depois me assustei quando o dedo médio fez soar a primeira nota. Estava estabelecido o primeiro contato, mas ainda suspeitava de que ele poderia morder minha mão...

Todas as tardes eu ficava ansiosa para vê-lo, me comunicar com ele, saber o que ele tinha de novo. Era como uma voz vinda de outro universo, que se misturava à minha. Eu não compreendia realmente aqueles sons, apenas ficava enlevada, como ter um filho pela primeira vez, como cumprimentar o dia e a noite chegando, como tocar o paraíso amando de verdade, em vinte segundos de prazer eterno. Eu me sentia viva, cada nota trespassando cada fibra de meu ser, cada molécula de meu perispírito... ali residiam todas as emoções, todo o conhecimento da humanidade, todo o amor, toda o beleza, todo o bem, tudo de bom, tudo. Um dia cheguei até mesmo a ouvir a frase "minha doce pianista." Foi a melodia mais bela que já ouvi.

Uma noite ele me levou a um parque, ou circo, não me lembro bem. Havia muita gente, e devo ter visto uns dois ou três conhecidos, mas não havia outra pessoa em quem eu quizesse me aprofundar. Compramos algodão doce e depois nos centamos, olhando as pessoas passarem. Vi uma felicidade nelas, radiante, como se eu pudesse participar das coisas boas que haviam acontecido no dia de cada uma. E o seu número se estendia ao infinito, até o horizonte, até onde minha vista alcançava, e tudo o mais era o céu. No céu límpido, as estrelas pareciam finalmente acordar em formar constelações. Eu não sentia o perfume das pessoas, apenas respirava a pureza do ar bom e fresco. Na minha imaginação, há um mundo quase infinito, onde adoro mergulhar, e ficar como aquela noite: aproveitando sem pressa os momentos de gozo da alma. No pensamento somos livres, como as nuvens, iogues. As coisas podem ser tão ou mais verdadeiras que na realidade, tudo de bom ou de ruim pode acontecer. O algodão doce parecia feito de nuvens, feito de amém; eu me sentia realmente nas nuvens, e meu cobertor devia ser bordado de estrelas. Me lembro de olhar para elas e perguntar se estariam vendo a minha felicidade e alegria. As convidei para tomar parte e me senti agraciada, visitada, quando uma delas caiu, tentando vir até mim, até meu reino dos céus. Me apressei em desejar que minha vida inteira fosse sempre aquele contentamento lancinante de eflúvios. Depois desejei ter saúde física para poder aprovetar as dádivas e...

Eu já te contei do acidente?

Sabe, tenho pensado muito, ultimamente, no conto do sábio chinês.

Folhas no chão

Eu podia ter o seu coração agora, guardar seu coração numa estante. Podia e devia te fazer ajoelhar, segurar teu queixo com uma mão... puxar teu cabelo. Eu te amo, mocinha. Você acha que é brincadeira, mas com seu coração não brinco não. Vou beber água e quando eu voltar, quero ele pra mim. Vou cuidar dele, melhor do que você tem cuidado.

Minha promessa de campanha é de ser jardineiro do teu coração. Deixe de ter medo e se arrisque um pouco, se abandona em mim, deixa-se libertar disso tudo. Dormir sem roupas, nadar sem roupas, etc, etc, etc.

A casa era linda. Parecia um canteiro de obras, é verdade, escadas pra todo lado. Mas dava até um certo charme. As folhas caídas por todo o chão. Árvores no quintal vizinho, muros baixos. Na frente tinha um espaço que poderia ser uma garegem, se não fosse tão exíguo de largura. O portão de ferro era amarelo claro. Ficamos um bom tempo no tanque do ínfimo quintal, conversando. Depois, murmurei alguma coisa e fomos para o chão. Creio que pra sala. Ficamos horas abraçados, perdemos a noção do tempo e já anoitecia quando reinauguramos o chuveiro para nos recompor e sair. Quando saí do banheiro, a procurei pela casa e encontrei no quarto, segurando um porta-retratos, concentrada. Sabia que eu estava na porta e não me olhava. Vi sua expressão mudar. Me olhou, com lágrimas nos olhos e o queixo trêmulo. Eu a abracei sem olhar o porta-retratos, sem dizer nada. Enquanto saíamos, todas as ruas me pareciam iguais, com seu jeito provinciano calmo, com as árvores perto das casas, os muros elegantemente enfeitados e simples. Um bairro agradável. Mas agora era noite e estava diferente. Você ficou uma mão sobre o queixo, o cotovelo na janela, olhando talvez a estrada que passava, as árvores que pareciam se repetir. A estrada agora era mal-iluminada. Eu pus a mão em sua coxa e logo encontrei o calor de uma mão magra e macia. Eu a apertei mas logo a soltei para engatar uma marcha. Encostei, conversamos um pouco, depois saímos e ficamos olhando as estrelas, sem nos abraços. Eu reparei que você não queria sentar sobre o capô e não sentei também. Depois namoramos ali, de pé, e ficamos abraçados sentindo o contraste do vento frio noturno e dos nossos troncos entra-aquecidos...

Não quero saber de seu passado nem falar do meu. Vamos dormir apenas, e amanhã falaremos sobre o que vai ser de nossas vidas. Se amanhã você ainda quiser ir morar lá, nós iremos. Mas amanhã faremos as malas, só amanhã.

Eu sinto uma dor aqui dentro, bem aqui, quando você faz isso. Dá vontade de chorar, parece que o mundo vai acabar, eu rezo pra que passe brevemente, e Deus me atende. Fico me perguntando porque faz isso comigo, se não vê que está me machucando. Creio que meus apelos não adiantam, então, me quedo como uma boneca de pano e deixo você pintar e bordar comigo. Tenho alguma esperança de que você mude. Engulo tudo calada pra que não soframos... Eu... Você me machuca muito quando faz isso. As palavras doem. Se você lesse meu pensamento agora! Mas não lê, não lê nada, não percebe meus sinais... você é cego. Eu te amo, seu bruto. Você é pessoa com quem mais me importo nesse mundo. Pára de falar um pouco, pára de falar pelo amor de Deus, estou ficando maluca com tua voz. Você nunca se cala! Meu Deus! Porque não me beija de uma vez? Aí você veria que te amo tanto quanto você diz me amar, talvez até mais. Se não te provo, é pra não te fazer sofrer. Você está falando tão alto e nem sabe. Cala a boca, por Deus. Eu te amo.

...porque é só isso, no fim das contas. Amor. Quando a gente aprende a amar, como eu te amo, aprende que é livre pra ficar triste, mas também pra se livrar dessa tristeza. Se você acredita mesmo no que falou, vai saber do que estou falando quando digo que te amo.

Você não sabe de nada, seu bobo.

Limítrofe

A diferença entre fazer a coisa certa e a coisa errada é muito pequena. Eu diria mais, diria que é de um segundo, ou até menos, um instante que decide tudo. Na verdade, você é quem decide tudo. Pode dar um passo pra trás ou se arriscar, dizendo pra si mesma que é auto-suficiente. A diferença entre ter um coração nas mãos e não tê-lo nem mesmo na cabeça é grande. Mas é sutil, se tornando pequena também. São muitas coisas pequenas, imperceptíveis, nada notável para a maioria, que fazem uma coisa grande, no final.

Eu estou pensando em me mudar pra ela e nada vai me impedir. Só me falta assinar os papéis, não adianta. Você esperava que eu fosse implorar? Você não me deu um motivo, eu não deixei de lhe pagar, foi totalmente injusto. Eu não sei o que estava se passando pela sua cabeça, mas também já não me importa mais saber. Quer saber? Você tem sua chave já, então, me deixe em paz.

Sim, querido. É linda! Rsrs Nós vamos poder ver assim que ela chegar. Você vai ver que coisa mais bonecosa. A não ser que já tenha visto. Você a viu por aí, ao redor? Ótimo... isso quer dizer que temos algum tempo. Vem, deita aqui no chão comigo. Ei! Estou esperando, não vou lhe puxar nem implorar, me ame agora ou nunca mais.

Porque você estava tão diferente hoje? De que forma? Ah, não sei, pensativa. Não é nada. Não é nada que queira me contar?, é isso? Como assim? Se você não quiser me falar, tudo bem, respeito, mas saiba que quero saber. Se te faz ficar assim, é importante pra mim.

A coragem é o alicerce... de quê mesmo? Não importa, é falácia, assim como a alegria ou a esperança o serem da paz. Pode ser verdade, pode ser mentira; as pessoas não vão atrás pra saber, elas engolem porque parece verdade. Eu não sou de meias-verdades, vou lhe contar tudo o que aconteceu essa tarde. Senta.

Como eu ia dizendo... eu nunca tive muito coragem. A coragem não vem de mim, eu não seria nada sem Deus. Mas não é só Deus que nos dá a coragem... desculpa eu estar chorando... estar hesitando.

Há um momento em que toda a sua vida passa como um flash. Chamam de momento da morte. Mas isso me ocorre o tempo todo; o tempo todo ocorrem coisas que mudariam minha vida para sempre, para bem ou para mal. Eu já consigo reconhecer quando acontece, como agora, e você não vai me enganar. Nem me enganar de novo. Eu posso ler nos seus olhos, vejo os seus gestos medidos, sei o que você quer. Eu gostaria de lhe pedir que fosse embora, mas eu não tenho coragem. Daqui a alguns segundos vou me levantar e vou embora eu mesma. Não estou afim dessa palhaçada toda, não tenho paciência, sou muita crescida para isso.

O quê? Como você tem coragem de me perguntar uma coisa dessas? E ainda diz que me ama! Faz pouco de mim! Eu não assinei os papéis, pode ficar tranquilo, se era isso o que tanto queria, mas não me peça pra ficar contento com isso. Posso até aceitar, mas nunca vou me esquecer do que você está fazendo comigo. Eu vou lhe perdoar, você sabe, mas não devia fazer isso. Preciso ficar sozinha agora. Não se preocupa, não vou fazer nada que você não queira. Afinal, não é assim sempre?

Comprei! Só falta pintar! Se quiser, podemos pintar amanhã, porque eu não queria contratar ninguém. Oh, meu amor! Você não existe! É tão bom que você tenha concordado comigo! Eu nem sei como agradecer o anjo que você é pra mim. Antes, eu achava que você ia ficar com raiva, ou triste, sei lá. Mas é muito bacana que você tenha aceitado numa boa e entendido assim. Agora, mudando de assunto... de que cor você quer pintar?

Eu não disse que sim e nem disse que não. Você me ouviu emitir alguma opinião? Eu fiquei em silêncio porque você sempre faz o que quer, e novamente fez. Não me culpe por isso, você teve chance pra pensar e não fazer. Pois agora, se vire, arque com as conseqüências. Escuta, eu amo você e já lhe protegi muito por cause disso, mas dessa vez não irei proteger. Você precisar passar por isso só. Sei que é inteligente, vai conseguir dar um jeito. Se precisar que eu faça algo, posso até fazer, mas você decide como vamos sair dessa. Você não é adulta?

Não estou diferente, é só impressão sua. Estou pensativa com relação ao que fizemos. Tenho medo de ter a maior besteira da minha vida. É, você tem razão, a maior eu já fiz. Essa pode ser a segunda maior... Não é medo, entende? É só que... eu não sei se estou pronta pra isso. Você vai ficar comigo? Se disser que vai estar ao meu lado, eu sei que podemos ajeitar tudo. Mas mesmo assim, não me sinto segura.

O medo não é o oposto da coragem. Coragem não é não ter medo, é tê-los e enfrentá-los. Quem não tem medo, quem não tem um segundo de hesitação, nunca viveu.

Está feito. Consumato est. Não tem volta. Não tem, não tem, não tem, não pode ter, não é possível. Meu Deus! Vou enlouquecer! Preciso parar de pensar nisso. Eu... não posso. Quer dizer... talvez até possa. Posso. Mas eu não consigo, não consigo! Porque é tão difícil? Eu devo estar fazendo drama à toa, pode não ser isso tudo. É só eu relaxar e parar de pensar. Mas para como? Não posso parar, eu não consigo. Porque não tem volta? O que posso fazer se não há o que fazer? É só pensar, agora. Está feito. E agora? O que vou fazer? Esquecer! Preciso é esquecer. Não consigo. Consigo. É só esquecer. Não consigo.

Tudo bem? Eu a machuquei? Não, está tudo bem. Tem certeza? Sim, foi maravilhoso. Nem sei porque estou chorando. Eu sei, mas não precisamos saber. Me abraça? Tá bom, vem cá. E agora? Agora nada vai mudar. Não, vai mudar tudo. Desculpa ter dito aquelas coisas... eu não queria te machucar. Você não me machucou, eu já disse. Eu não sabia como fazer isso, entende? Está tudo bem. Não, eu sei que não está, você está chorando. São lágrimas de alegria, meu amor. Vê? Estou sorrindo! Eu não queria que tivesse feito nada por mim. Rsrs. Ela é linda, não é? Sim... é a coisa mais linda do mundo. Me perdoa pelo que eu disse hoje à tarde, tá?

Você falou. Você podia ter hesitado. Mas você falou, e isso não me machucou. Foi lindo, aliás.

Traga dois, por favor. Hoje estou com muita fome. Rsrs. Está pronto mesmo pra me ver comer de verdade?

É sobre o que você me disse ontem

    Eu nunca havia visto você dessa forma... isso... me surpreendeu, me assustou, me decepcionou, e eu me senti enganada. Passei dois dias sem libido, e sinto que precisamos conversar. Porque eu não sou de deixar as coisas pela metade, sabe?
    Sobre isso de metade que eu queria falar... porque eu acredito em nós, acredito que podemos nos fazer bem... Mas você não confia ainda em mim. E eu tentei sublimar isso, mas, sem que você entregue tudo, como eu faço, eu não me sentirei segura nisso. Eu preciso que você seja a minha segurança, entende? Então... você pode me dar tudo ou não? Eu não quero limites entre nós, eu não posso continuar sabendo que não te tenho por completo, porque eu te dei tudo. Tudo.
    Você tem tanto medo de me machucar. Mas você não entende que eu não tenho mais meda da dor, o que me dói é o seu medo. Nós somos diferentes... A minha dor não é sutil, mas não quero que me poupe, porque está ================ que devemos seguir, mesmo com a dor. Não podemos fingir que seguimos, mudar de assunto. Olha... eu tou aqui, não tou? É porque eu confio.  Então, só falta você. Ei... Onde você está?
    Você é maior do que essas questõezinhas... o meu afeto por você é maior... você acha que eu quero trocar tudo o que conquistamos?
    Ei, vem comigo. Vem logo.
    Vou te pedir uma coisa. Só faremos uma vez.
    O mar ondula sua línguas contras as paredes, fazendo subir um cheiro doce e morno, fazendo voar uma núvem úmida sobre o casal. A noite é fria, alegre e calma.
    Eu me sinto tão ligada a você! Fica comigo
    O casal dança ao som das ondas, uma de suas trilhas sonoras, interpretada divinamente pelo ventro aguado de Iemanjá.
    Enquanto os fogos disparam no céu em sincronia com a voz vinda do oceano, o casal dança uma música que só eles podem ouvir, com seus corações se acalmando e marcando o ritmo. Ela o perdoa, e pra lhe mostrar isso, pela primeira vez, despe seus pés para ele, em público, abandonando os calçados, mesmo sabendo que irá querer esquecê-los.
    Eles deitam as cabeças aos ombros, e um sopro másculo assenta e dorme sobre a pele do pescoço dela. Seu coração está quente e suas mãos, geladas. Ele beija seus dados e a abraça mais forte, sentindo os pêlos do antebraço dela tocar seu pescoço, pensando consigo no quanto é grande o carinho que sente por aquela mulher, por seu misto de receio e entrega, por sua vontade infantil de querer ficar mais. Tomado por um afeto quase paternal, ele acaricia as pontas dos dedos o seu crânio. Agradece a Deus por não necessitar falar para ser compreendido. Lamentou por um instante a tristeza que ainda havia nela, na qual ainda não tocara, e se prometeu novamente cuidar dela como ela merecia.
    Sabe porque eu me permito me chatear com você? Porque sei que nada pode mudar o que gosto em você.
    A música aumentou, e eles dançaram até o mar cobrir suas cabeças, até serem um só, ele, ela, o mar, e a música.

A santa

Não pense que eu sou santa. Eu sei ser boazinha, mas também sei ser louca. Todos ficam me olhando como se eu fosse um... não sei nem o que dizer, de tanto que estou cheia. Cansei de todos me tratarem como se eu precisasse de redenção, de ser absolvida por tudo. Como se eu não fizesse nada de errado, como se eu precisasse de ajuda, como se eu fosse ser grata depois, como se eu estivesse no lugar da outra pessoa.

Você entendeu isso que eu falei agora? De estar no lugar da outra pessoa? Porque todo mundo gostaria de ser ajudado, então, quando alguém me ajuda, está pensando em ser ajudado, está se colocando no lugar de quem é ajudado... entendeu agora?

Mas eu não quero receber nada que eu não mereça e pelo que eu não tenho trabalhado, minha dignidade recusa isso!

Então, deixem antes que eu prove se mereço ou não... além disso... merecendo ou não, quem disse que quero ser ajudada? E quem é que vai julgar se mereço? Eu por acaso pedi?



Nem o Cristo ajudou a quem não lhe pediu. Quem não quiser receber um não, deve evitar se intrometer no que não lhe cabe. Pois então, a vida é minha, cabe a mim como vou fazer as coisas, independente de ser mais fácil ou mais difícil. Eu não nasci colada em ninguém, sei me virar, me viro desde criança. Não preciso da pena e muito menos da gratidão de ninguém. Não sou galinha e não tenho pena nem de mim, não passo a mão na cabeça de ninguém, porque cada um tá situação em que se coloca.



Agora, tem gente que acha que faz os outros se sentirem melhor ao aliviar suas penas. Pois pra mim, só cresço quando eu mesma faço minhas coisas. Quero ter liberdade pra poder bater no peito e dizer que o que conquistei é meu, que foi por meu merecimento.



Ei! Não fica me olhando como se eu fosse uma megera egoísta. Eu tou falando é de trabalho duro, tá? Quando trabalhamos até podemos estar em grupo, mas não quero me apoiar em ninguém, nem em você. E não sei como vou te dizer isso, mas, apesar de tudo, de eu ser uma chata de galocha e de tudo, você tem sido sempre meu apoio. Mas com você é diferente, você está lá sempre que eu vou atrás. Você nem sempre sabe quando eu preciso, mas quando preciso, você sempre está disposto. Você disposto até às coisas que eu ainda não tenho coragem... assim... tem coisas que eu me recuso a fazer, pra não sofrer. E você me cobra. Tem medos que eu tenho, sacrifícios que faço em nome de certas alegrias... eu sei que não substituem o que me falta. Mas você está disposto a me dar o que me falta. Porque o resto eu posso conseguir, mas no que eu sou fraca, em algumas coisas sou uma criança, e nisso você me ajuda. Você não desiste de mim.



E eu recuso sua ajuda. Porque eu sou uma covarde. Mas você me ama mesmo assim. Mesmo sem eu merecer. E eu que não sei agradecer, faço o quê? Fujo de você, que é só o que sei fazer. Eu vivi a vida inteira fugindo... eu tenho medo de tudo...

A sós

O convite

E se eu te beijar agora?
Você pode tentar, mas não conseguir enquanto tiver gente morando aqui
__________________________________
- Sim, queremos que você passe uns dias conosco, é só coisa provisória, sabe?
- Eu vou arranjar um lugar...
- Sim, vai, mas enquanto isso você fica aqui, que tal? Aceita a proposta?
- Que opções eu tenho?
- Você pode optar por me fazer uma desfeita, ou ficar aqui
- Mas seria só por um tempo, sabe?
- É?
- É que eu não tenho... Olha, eu não quero parecer ingrata, muito menos abusar de sua boa vontade
- Até agora você não mostrou que ela é desmerecida!
- Não é isso... é que você está sendo tão gentil comigo, e eu não quero atrapalhar nada
- Boba! Você não vai atrapalhar
- Não, mas de todo jeito você vai querer me dar atenção, e não quero lhe tomar tempo
- Como eu disse, você não atrapalha, vai é agradar, será uma compania...
- Você quer isso mesmo?
- Você quer?
- Se você achar que devo, que tá tudo bem...
- Então você fica?
- Mas como uma condição
- Qual?
- Que você aceite um abraço meu
_________________________________
- Você mentiu pra mim ontem
- Quando?
- Na verdade, apenas omitiu. Assim como eu não falei tudo também, mas você também esqueceu de citar um medo
- Qual?
- Que tem medo de ficar sozinha comigo... ou melhor: que teria medo de si mesma
- Hoje você quer me ofender ou me constranger?
- Ofendido eu já estou desde ontem, mas isso é de menos. Estou dizendo isso com calma e bom humor, na verdade
- E por que tá me dizendo isso, afinal?
- Porque eu também tenho medo
- E agora, você tem medo?
- Não... o seu sorriso faz eu abandonar tudo, inclusive o medo, inclusive a mim
- Eu não quero te machucar, nem que nenhum de nós... se machuque
- Eu quero me abandonar... em você...
- Não faz isso... Melhor não... Aqui não...
- Você tem medo... Por quê, se anseia tanto?
- Eu não sei... Não entendo mais nada...
- Não adianta fechar os olhos... eu posso ler seus pensamentos...
- Adoro seu cheiro
- O que você quer de verdade?
- Eu não sei
- O que você quer?
- Você... não sabe?
- Sei.
- Então... me... dá...
- ...

Atrás de suas pálpebras

Algumas coisas não ousamos falar, mas pra que fique o mais claro possível, vou dizer com todas as letras: eu estou disposto a estar contigo em todos os momentos, quando você estiver no fundo do poço eu vou estar lá pra te ajudar a sair, quando você fizer suas conquistas, quero comemorar com você, eu serei o seu refúgio quando você quiser sair de onde estiver, eu serei o seu confidente, o seu tutor e a sua cobaia, eu ficarei em silêncio quando você quiser falar, e estarei por perto quando você precisar de silêncio. Eu vou te ajudar a se livrar de todos os seus medos, a mudar todas as coisas que te machucam, a esquecer o que pesa sobre seus ombros. Eu vou tirar o pó de seus pés quando você chegar, segurar sua cabeça enquanto você dormir e te comprrender quando você mesma não conseguir isso. Eu estou segurando suas mãos quando anoitece, estou orando por você quando se afasta, e celebrando a vida quando está comigo. Você tem livre arbítrio pra me dizer quando ir, e estou te ensinando a um dia não precisar de mim, mas você sempre saberá onde me achar: atrás de suas pálpebras.

O meu pai morreu

Porque eu sei que onde quer que ele esteja, estará num lugar melhor. Eu sei a pessoa que ele era, e com certeza deve estar, se for por quem ele era. Mas mesmo assim... Não acostumo, não aceito, e tenho medo... Por que ele teve que ir? Agora eu nunca mais vou vê-lo... ou até você, mas não vai ser a mesma coisa... Rsrs. De que adianta a gente ser iluminada e esclarecida, se... quando vem a morte... a gente não está esperando... Nós programamos tanto nossas vidas, nossos destinos, mas chega uma hora em que até a comida deixamos inacabada... É triste... porque eu não posso fazer nada, não posso nem chorar porque nem isso vai trazer ele de volta... e quando eu quiser vê-lo, conversar... agora tudo vai mudar, vai ser tudo diferente...
Eu só vou poder conversar com ele aqui dentro de mo,, mas tudo que eu ouço ele dizer é "eu estou bem, eu estou bem..."
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A existência é uma espiral, não devemos ficar no mesmo círculo quando terminamos nossos afazeres, é hora de nos desperdirmos e irmos embora, continuar as coisas de outra forma.
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Ele era meu pai! Agora eu não tenho mais pai, eu não sou ninguém, não tenho nada!
- Você tem a mim, semṕre terá. Quando eu não estou com você, estamos afastados?
- Eu não sou de nada.
- Teu tesouro está onde estiver teu coração. Eu estou sempre, ele também. E você pode nos ter a hora que quiser...
- Mas por que ele? Por que agora? Porque Deus não me deixou ficar mais um pouco com ele?... ao menos me despedir...
- Eu estou aqui contigo. Vou ficar calado até que você me peça pra falar, tá?
- Un-rum.
- Eu não vou nunca te deixar
- Eu sei... disso... mas se um dia eu ficar sozinha?
(...)
- Eu me arrependo de muita coisa... de não tê-lo obedecido mais vezes, das vezes em que brigamos... não ter escutado ele, mesmo quando eu achava que estava certa.
(...)
- E eu me lembro... an... hunf... me lembro de um dia em que eu estava... aaa... sentada à mesa... ele me disse pra eu comer, mas eu não comi. Ele não brigou comigo, não discutiu... Eu era uma criança, eu era burra... e das vezes em que me tranquei np banheiro pra chorar, pra... escon... der... as lágrimas dele... Eu não precisava esconder... ele era meu pai, s[p queria que eu comesse, e eu fiquei ali sentada, fazendo birra... mas agora eu não posso dizer "pai, me desculpa", eu não posso pedir desculpas a ele... Eu não pedi desculpas naquele dia, eu não chorei, mas sei que deixei meu pai triste... naquela época... eu tinha os cabelos bem curtinhos... curtinhos como eles estão hoje...
- Foi por isso que você mesma cortou eles?
- Foi... ____ O meu pai merecia uma filha melhor... Eu queria que ele voltasse... mas agora ele não vai mais voltar, não é? E não importa quantas lágrimas eu derrame... Acho que nem eu ter pêgo na tesoura vai adiantar... Ai, meu Deus!... porque eu não sou mais uma menina... eu não estou mais sentada na mesa... o meu pai morreu...




____________________

Eu sei que deve estar todo torto. Mas eu cortei pra ele saber... ai...
que eu ainda sou...
                   sua...
                         filha...

Da essência do amor e condicionamento baiesiano

Tchan-ran! Aqui está o bloquinho de sempre da bolsa, caneta, e a mão pra escrever. Agora ele dorme e senti vontade de falar. Falar do amor, de algumas coisas que eu tava aqui pensando. Talvez tenha esquecido algumas, ou esqueça, então vou pensando e escrevendo, sem refletir muito nas palavras.
É como uma ocasião em que vi um grupo de pessoas fazendo festa de carnaval em homenagem ao seu bairro, eles diziam amar o bairro. Não gosto de patriotismo, acho toda espécie de idolatra uma besteira, uma transferência da realização que a gente devia ter consigo para o objeto idolatrado. Acabando num fanatismo, a pessoa fica cega, não vê o resto, fere os outros... porque quem ganha costuma humilhar quem perde. E o perdedor raramente aceita ter perdido, quer revanche, cria justificativas, apela... maturidade... aquelas pessoas não eram fanáticas, mas tinham uma paixão, um amor que me impressionou. Por um bairro!
E aí eu tava aqui deitada, acariciando ele, pensando no quanto eu o amo, como aquele grupo de carnaval, que compunha marchinhas próprias. Nós também temos a nossa canção, feita de sussurros e respirações. Primeiro pensei nos bairros e nas pessoas que não têm quem as ame... coitadas... eu poderia amá-las, que tenho muito amor em mim. Mas alguém há de morar nesses bairros e amá-los de sua forma, sem estardalhaço, mas não menos sinceramente, ou talvez mais. Depois pensei o que seria das canções se eles morassem nesses bairros. Seriam outras canções, mas seriam tão bonitas ou tão verdadeiras? Seriam necessárias? Existiriam? Talvez quem ama a química, amaria também a física se não existisse a química. Amamos por escolha, nós escolhemos um objeto por suas singularidades, ou talvez não seja uma escolha, é um magnetismo, uma lei, que diz que o objeto 0010 só encaixará no objeto 1101. Mas... haverá apenas um de cada no universo? Porque hoje eu digo que amo alguém, faço de tudo pela pessoa, e amanhã acontece algo, ela morre, ela vai embora, ela me trai, ela me esquece, eu não a amo mais. E nem por isso menti quanto disse amar. A gente pode também amar e não estar com a pessoa. Aparece gente nova em nossa vida, mas a pessoa que se foi não fez nada pra deixarmos de gostar dela. Só falta de cultivo, já que a distância... nem distância, na verdade. Eu o amo porque ele me compreende, se encaixa em mim, a intimidade que temos levaria muito tempo e esforço pra ser construída com outrem, e ele chegou num momento em que eu precisava, em que não havia ninguém que cumprisse esse papel. Mas se tivesse sido outra pessoa a vir antes dele, se eu desse, tivesse dado chance a outra pessoa, eu a amaria de todo meu coração. E se chegar outra pessoa depois, também vou amar. Essa coisa de almas gêmeas... haver apenas uma pessoa pra cada uma outra no mundo... Estou pensando no planeta redondo, cheio de gente, como formiguinhas ao redor de uma bola de açúcar. Cada uma lambe seu açúcar e algumas resolvem ficar onde ele está. Se houvesse apenas uma pessoa, onde estaria? Quando eu saberia que era ela? Porque a gente sempre acha que encontrou a pessoa perfeita, que conhece os seus pensamentos todos, que pode confiar sem medo e sem reservas, que pode dar tudo. Então, eu posso até deixá-lo um dia, mas não sei se o deixarei de amar, mesmo que eu encontre outrem. E continuo amando as pessoas de quem não me lembro, das outras vidas, as que passam por mim nas ruas, cada mendigo, cada bairro, cada criança cujos pais não abraçam, todos os deprimidos e desiludidos, todos os carnavaleiros otimistas, todos eles merecem amor, todos mereceriam que eu ficasse ao lado deles na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Não seria certo ser egoísta com a humanidade. Mas Com uma pessoa eu haveria de me identificar mais, e eu daria um nome especial, faria uma composição... E continuaria amando quem eu já amava, só que cada um amor teria uma forma de expressão. Uma pessoa eu amaria com conselhos e ouvindo ela, outra, com meu trabalhos, meus serviços, pra outra eu seria como uma mãe, uma irmã, uma eu chamaria de pai, e outra eu dormiria ao lado, na minha cama.

Melhor apagar a luz pra não incomodar seu sono.


Quem ama é abençoado. Quem descobriu que dentro de si existe amor, é feliz. Mas quem não se sente amado... ou amada. As mulheres que estão longe de marido... coitadas. Mas cada um com sua dor, antes ficar feliz por quem está do que triste por quem se considera. Eu despertei o meu amor, sou feliz. E vou dormir.

sábado, 7 de junho de 2014

Toc toc

Oi. Tava te esperando. Sei. Você está sozinha? Estava... Rsrs. Ótimo. Você comprou? Comprei, está aqui comigo. Posso ver? Melhor entrar. Tá bom. Me dá, agora. Cuidado, sim? Eu sei, eu sei. Quanto foi? Deixa isso pra lá. Qual é? Me diz. Esquece. Você sabe como faz? Acho que consigo só. Tem certeza? Não quer ajuda? Não, parece que vai ser fácil. Se você diz... O que eu faço? Você? É, você quer que eu saia? Pode ficar, se quiser. Ok. Vamos lá, então. Certo... Deixa eu ver... Assim... Tá quase. É assim? Espera, deixa eu... Pronto. E agora? Acho que é só esperar um pouco. Traz aqui. Não, melhor deixar aqui. Que que tem eu ver? Espera. Pra quê tanta pressa? Tá, mas vou ficar de olho. Psiu... Ran? Traz aqui tua mão.
Então, isso é o quê? Negativo? Parece, deixa eu ver. Tomara que dê tudo certo. Relaxa, vai dar. Mas e aí? Deu o quê?

O que me importa

Sei lá, às vezes eu acredito nessas coisas sim.
Viram a esquina.
Você sabia que eu sonhei contigo antes de te conhecer?

Trilha sonora: O que me importa - Adriana Calcanhotto

O sinal se avermelha.
É... Acho que já te contei esse sonho... Era você, totalmente... Eu colocava a cabeça em seu colo, você passava as mãos em meu rosto, estavam frias, mas leves, e aquilo me aconchegava. Eu sabia o que faria, sabia que aquilo mudaria minha vida pra sempre.
Um carro estaciona.
Aí você se inclinou, e meu coração disparou, e apesar da ansiedade, não tive medo. Você me beijou;
Sentam-se à mesa.
Tem certeza de que quer ficar aqui?
Tenho. Você sabe porque viemos justo pra cá hoje?
Garçom silencioso chega.
Você está precisando de dinheiro?
An?
Se precisa de dinheiro. Eu sei que você está precisando. Você trabalha muito, mas está se consumindo à toa
O garçom silencioso anota o pedido e sai.
Também não é assim.
Você com vergonha, bobagem. Pede qualquer coisa, o que tiver de mais caro
Cruza os braços.
Eu te ofendi?
Não. Eu só vou querer uma água. Cancelo o pedido.
Desculpa, eu não quis...
Não, tudo bem, eu estou sem fome.
Você quer ir embora, então?
Sabe o que eu mais queria, no fundo?
Garçom silencioso passa, recebendo dois olhares simultâneos da mesa.
Sim, eu sei.
Não, não sabe. Estar com você, é só o que me importa.
E você está agora, você me tem
Não te tenho não, você não é uma posse minha. Você é o que mais me importa, nós.
Pra mim também, você sabe disso...
Então vamos embora.
An?
Vamos!
Vem cá, deita aqui no meu peito
Me desculpa, tá?
Você que tem que me desculpar, vocÇe ficou com fome por minha causa
Nem só de pão e água vive o ser humano
É... vive de dormir também... Rsrs...
Huummm... adoro esse cheiro!
Tou com sono... Dorme comigo?
Só se me der um beijo pra dormir
Hum... huuummm...
Nossa... Tou com um sono!...
___________________________________________

O que era?
Era... um homem que chamava meu nome
Era eu?
Não sei... Não entendi... E tinha uma mulher ao lado dele, deitada, de roupa... um vestido cintilante
E o que eles faziam?
Nada. O homem só estava sentado. Parecia que queria mostrar a moça
E essa moça? Fala dela...
Era morena, mas não vi nada direito...
Conversam mais, param de conversar. Se beijam.
Nossa... Tou com um sono!...

PROGNÓSTICO: AFOGAMENTO

- Sentar? Sentar?? Não, você não pode se sentar, o que você pode fazer é abrir essa boca grande sua e me dizer o que está acontecendo aqui

- Ei...
- O quê?
- Tem gente doente por aqui, que precisa de silêncio, então alivia um pouco, 'tá?
- 'Tá. Vou falar baixo. Aliás, falar não, vou escutar, isso sim. Você fala agora, e quero tudo explicado detalhadamente.
- 'Tá certo. Ela se afogou e eu a trouxe pra cá, porque ela não 'tava voltando a si. O que você queria que eu fizesse?
- Pra começar, que não a deixasse se afogar
- E eu sou Deus, por acaso?
- Olha o jeito que fala comigo!
- Desculpa, eu 'tou com os nervos à flor da pele... o médico 'tá passando ali
- Sei, nervos. E como foi que ela se afogou? E me fala a verdade
- Como se afogou eu não sei, eu não 'tava na hora, só depois que eu... espera, vou ali falar com o médico
__________________________________________________
- Ela engoliu muita água... mas parece já ter estabilizado. Vamos esperar ela acordar...
- Certo.
- Você vai ficar aqui comigo?
- Vou, né?
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- Vou pegar um café pra gente, você quer?
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- Aqui está. Já deve ter esfriado um pouco.
- Tem nada não.
- Um.
- Você 'tá calada hoje.
- Pois é... (...)
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- Você gosta dela, né?
- É que eu me sentiria mal se acontecesse alguma coisa...
- Sei. Vê pra mim as horas? Ah, deixa, esqueci que você 'tá sem celular
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- Oi, menina bonita...
- Rsrs... meu pai me chamava assim...
- Você nos deu um susto, heim?
- Desculpa...
- Você sabe quem eu sou?
- Meu anjo da guarda?

Carta

Quando você estiver lendo, eu já vou ter ido embora e estarei muito longe, nem adianta vir me procurar. Você não sabe pra onde vou. Só quero te dizer pedir que não se lembre de mim como aquela que te fez mal. Nem como aquela que não teve coragem de dizer na cara que estava indo embora. Eu sou mesmo fraca. Sem fui, você sabe disso. Você não merce isso pra você. Por favor, encontre uma pessoa melhor que eu.
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Não voltaria mais aqui. Vou deixando algumas coisas porque não preciso, e quero que jogue tudo fora. Não guarde nada de material de mim. Sei que você me ama, mas vai ficar bem. Esse mundo é injusto com as pessoas que se amam de verdade. Sei que marquei em você, assim como você marcou em mim. Não se esqueça de que fomos felizes. Mas já que eu não posso mudar nem mudar as coisas, é melhor pararmos agora. Adeus.
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São quase três horas, eu podia espara você chegar; mas não tenho coragem de te fazer sofrer e não quero ver a sua reação. Eu não queria estar fazendo isso com uma pessoa como você, mas...
Cuide de tudo pra mim e termine as coisas aqui. Siga sua vida e seja feliz. Não guarde eisso carta, porque me doeu escrever.
Essa Beijos. Adeus.
P. S. Essa é a terceira vez que escrevo Eu não quis fazer o que estou fazendo Eu escrevi essa carta às 2:59 eu não vou fazer isso
Eu não vou fazer isso
Eu não vou fazer isso
Eu não vou fazer isso

Olhos moles

Tá bom, eu fico mais um pouco. Mas é pouco mesmo! É sério...

Oh...

E nem adianta fazer esses olhos moles de pagu!
É sério... eu tou começando a ficar em dívida, então eu vou fazer isso

Você quer mesmo?

Não é por querer... E mesmo que eu queira... Será bom pra nós

Nós, nós. Não sei quem é esse seu nós!

Você está se chateando à toa!

Á toa? Pois se põe no meu lugar. Agora diz: reagiria diferente?

Sim, porque eu sou diferente. Embora tenhamos muita coisa em comum, e sejam elas que nos liguem... mas eu sou eu, eu não ficaria de birra! Rsrs

Ai ai ai! Ó, faz assim: faz o que você quiser, você manda em sua vida. Porque pelo visto, eu é que não mando!

Mas será o benedito? Não acredito que estamos tendo essa conversa! O que você queria que eu fizesse? Deixasse as coisas se complicarem?

Não, eu queria que você não fizesse isso. Será pedir muito?

Ei...

Você precisa mesmo fazer isso?

Você tá com medo? Não precisa. Eu vou, e amanhã vai estar tudo certo. tudo seguro!

Então diz que me ama.

Que me ama.

Quem você ama?

O que eu não quero fazer

- Fazia já algum tempo que não fazíamos algo assim. Mas tudo tem uma explicação, né? Infelizmente...

- Você quer falar sobre esse "infelizmente"?

- É... Acho que a pior coisa do mundo é você fazer o que não quer. A coisa mais difícil, trágica e... chata. Mas precisamos fazer. Rsrs. É uma questão complexa, porque por outro lado a gente quer, se não não faria, que ninguém obriga ninguém. Agora, por outro lado, obriga sim, quer dizer, a gente que se obriga. Se for pensar bem é uma coisa maluca. No final a gente decide fazer ou não, mas é bom saber da nossa vontade real. Porque no final a pessoa tem uma vontade que não sabe que tem, e não faz o que queria fazer. Acaba fazendo o que não quer.

- São reflexões interessantes...

- É, tou filósofa sim. Mas chega de filosofar, que a tarde está uma delícia.

- Você que resolveu ver, mas ela já estava. Porque isso agora? O que mudou?

- Isso? Hahahahaha. Foi pelo que aconteceu ontem, o que eu ia te contando antes...

- Sim?

- Eu fiquei enrolando pra não ir fazer o que eu não queira.

- Algo que eu deva saber?

- Isso não vem ao caso. Não são detalhes sem os quais você não possa viver.

- Certo. Poderemos voltar a isso depois. Vocês ontem tiveram algum diálogo importante?

- Foi. Aí eu me encostei na parede e ficamos um tempão conversando. Acabou que eu me encostei na parede e sentei no chão. Aí ele veio e sentou ao meu lado, depois deitou no meu colo... Oh, foi tão bom! Porque já fazia um tempo que não fazíamos essas coisas. (...) Acho que é o tipo de coisa que a gente... quer.. fazer... Você me dá licensa um instante?

- Sim, claro.

- Pronto. Tinha que checar meus horários pra hoje. Estou sem a gente, então... Saindo daqui vou fazer o que eu não quero, finalmente!

- Parece animada com isso!

- É que descobri uma coisa. As coisas precisam de trocas, eu dou uma coisa pra receber outra, sempre pagamos... eu vivo pagando dívidas... nunca vou terminar, parece...
Acho que devo estar sendo castigada...

- Você está sendo dicotômica! As coisas não são assim: dar e receber. É uma forma de simplificar tudo, mas não funciona de verdade. Você não precisa se cobrar... Digo isso porque o seu único cobrador é você?

- Eu?

- Sim, você. Isso tem te impossibilitado de vivenciar plenamente as coisas que lhe são dadas de graça. Vocês têm um ao outro, isso deveria ser mais do que suficiente. Todavia, você não precisa obrigatoriamente se sentir o tempo todo satisfeita, isso seria uma forma de auto-cobrança. Primeiro você deve abrir um espaço para trabalhar também as emoções negativas entre vocês e para consigo mesma. Mas sem cobranças, entende?

- Acho que sim. Você fala sobre estar bem comigo mesma antes de tudo... por outro lado... Por outro lado eu preciso mesmo ir, fazer o que não quero, sabe?

- Isso é uma cobrança?

- Rsrs. Definitivamente não. É uma escolha mesmo, uma escolha de livre e espontânea vontade! Rsrs.

- Certo. Isso é bom. Mas, voltando o que você não quer fazer...

- Não dá, nosso tempo acabou!

O chá está pronto

Quando voce fica sentada assim, parece uma criança.

Assim comportadinha ela parece uma criança. Às vezes crianças, às vezes mulher, ela é uma mutante.
Agora ela está só de soutian e calça, na cama, lendo. Fica toda encolhidinha, como se tivesse vergonha de se mostrar pra mim.
Antônia está perdendo a vergonha que tinha comigo antes. Isso é bom. Mostra que agora ela entende que é tudo normal.
As nossas cabeças são diferentes, eu acredito num céu possível, ela, num céu diário. Mas agora não vou comparar novamente as duas. Não vale a pena.

Tá, tá. Eu vou conseguir. É só essa vez, não faço mais. Não toco mais em um fio de cabelo dela.

Droga. É só essa vez.

Não temos que sentir culpa pelo que queremos. Devemos admitir as nossas vontades, desejos, medos e aspirações. Ou para lutar contra elas ou para realizá-las.
Você tem a vontade e não luta pra combater. Você é covarde, porque usa a pior desculpa de todas. E se você tivesse oportunidade, certamente não ficaria fazendo essa pose.
É muito fácil passar por cima das coisas quando estas não estão por perto.
Quero ver é com ela aqui.

O que está acontecendo com você hoje?
Nada, você quer um pouco de chá também.
(Chá? Aí tem coisa que eu sei)Quero sim, mas deixa o meu esfriar.
Vem cá, deixa eu te servir.
(Não tinha nada não, era só impressão mesmo... oba, beijo de chá!)

Não, por favor, não faz isso... não me abraça assim... ainda não passou... tenha paciência, tá?

O vento toca sua pele e ela dança ao sabor do vento, como uma folha seca. Ela é levada pelo vento, se deixa levar, frágil. Seu cabelo se entrega assim como ela.

Tenho que ler ainda, isso aqui é pra amanhã. (...) Eu sei que não é obrigação minha, mas o pessoal quer que eu aça isso. É como se fosse da minha alçada. Ningúem diz mas querem que eu leia.

(alçada... adoro essas palavras em seus lábios.)

Não vou olhar. Sei que não quer que eu olhe. Você sente meus olhos. Eu faço a mesma coisa mil vezes, não tenho forças, não sei se quero ter, acho que sinto prazer em repetir os "erros" (se é que os considero erros).

O casal se abraça, se beija e se joga na cama, embora uma das pessoas relute.

Olha, desculpa, viu?
Que nada... bobagem...
Sério... eu até queria...
Esquece, tá tudo bem.

O chá tá pronto.

centro

quando voltei a encontrar a josélia foi no grupo de atendimento. pena ter sido em tais circunstâncias... podia ter acontecido em circunstâcias melhores, mas foi bom mesmo assim revê-la. eu me senti inibido de ir até ela e dizer qualquer coisa. ela podia não gostar, já que eu era um estranho pra ela. quando levantei os olhos vi que ela me encarava fixamente. fixei pra ver se era porque me (re)conhecia ou queria me conhecer. não fez nenhuma menção de que me conhecesse. nem por isso eu quis me apresentar. em segundo lugar pra não atrapalhar o problema que ela apreciava. e depois por minha timidez inata. o cara ao lado dela devia ser seu namorado. marido. olhei a aliança. e daí? eu uso duas. e também não a paquerei. até porque achei que ela tivesse me reconhecido. meu deus, se não, por que ficou me olhando? eu já conheço esse chão, eu já estive aqui antes.
bocejei com a boca muito aberta, pra ela sacar que não estava com a atenção na pessoa dela. fiz um monte de manobras, inclusive cuidar de meu trabalho. agora eu era o professor. a moça do vestido longo vermelho impressionou a todos que estavam na sala. acho que pela ousadia do vestido de saia cigana. à josélia também. mas a moça passou e a josélia voltou a se debruçar sobre seu problema. na sala ao lado, um homem achacado(?) por dores. "agora o lugar está diferente. eu vejo luzes, meu amor." acorde, cindrillon, acorde. a josélia pede um suco de grosélia, mas isso lhe lembra o vestido da moça que passou.
"já escreveu muito hoje?"
eu abro os olhos e paro porque ela disse que quer assistir à novela. o caso de josélia ficou por isso mesmo e talvez as duas sejam irmãs. eu já conheço esse final. acaba sempre nesse mesmo lugar. e voltamos sempre ao mesmo chão. por isso quando chegamos há sempre a vaga impressão de que é tudo conhecido. até o chão parece com aquele onde foi derramado sudo de grosélia. mas, talvez, foi num vestido. que estava no chão. "agora o lugar está diferente. eu vejo luzes, meu amor." eu arrumei tudo pra você depois que a professora saiu. foi usado um pano de chão familiar. suas roupas de então estavam mal cuidadas, feito trapos de chão, seus trajes. cindrillon, acorde, cindrillon. agora tudo está bem. tudo está lindo e o seu vestido brilha de tanta luz.
"esse final eu não conhecia. eu não conheço esse lugar, eu não pisei nesse chão."
é porque não era você. era sua gêmea univitelina, professora, com o namoradíssimo e o olhar encabuladíssimo.
já escrevi muito hoje. vou assistir à novela. embora eu não esteja entendendo nada do enredo, embora. "eu já conheço esse lugar. eu já pisei nesse chão."
escorreguei.