- Uma minha? Como assim?
- Ah, sei lá, qualquer coisa...
- Mas, assim... qualquer coisa mesmo?
- Você tem uma boa?
- Agora na verdade eu não tenho...
- Nenhuma? Nenhuma eu não acredito
- Eu tou vivendo uma agora
- Mas essa não vale, porque você não pode contar o final...
- Então eu vou ter que inventar!
- Invente, então.
- Mas, e se eu tiver falando a verdade?
- Então eu nunca saberei.
- Então tá, lá vai!
Se conheceram numa convenção, se não me engano. A moça era jovem e bonita, e estava um pouco perdida ali. Não parecia estar acompanhada. Alguém (não me pergunte quem) veio a apresentou ela ao homem, que usava gravata e tinha um sorriso lindo. Ela o achou bonito na hora, e quando bateu os olhos nos dele e ele nos dela, viram que tinham muito em comum. Ele perguntou de que cidade ela era, e fizeram brincadeiras com o adjetivo pro cidadão derivado da cidade. A noite estava começando a valer a pena. É difícil você encontrar alguém que "case" com você assim tão de cara, então os dois estavam afim de aproveitar o papo, sem ter que dividirem as atenções com terceiros. Então ele saiu e foi buscar outra bebida (pretexto), e ela ficou ali, sem saber como continuar a conversa com pessoas que não sabiam como aquela começara. Ele percebeu a falta de jeito dela e a chamou. Na verdade, não era falta de jeito, era... bom, ela não se sentia tão à vontade quanto com ele. Já ele, não podia deixar transparecer nada, ali não era ocasião. Na verdade, nenhum dos dois. Mas... você sabe o que é um clima? Sabe definir quando começa um? É uma espécie de jogo, e cada um faz tentativas, esperando tais ou quais respostas, mas não é algo com início-meio-e-fim. Um clima é um nome bom para o que estava acontecendo. E uma explicação seria que precisamos de pessoas com certo nível de não-conhecimento, um alguém estranho. E tão estranhos eram que sabiam tão pouco um do outro, mas queriam já sair dali para "reviver os velhos tempos", como antigos amigos de infância. E na verdade, não precisavam se conhecer totalmente, a necessidade de mais informações vem com o tempo, e se for pensar bem, eram apenas duas pessoas conversando, falando da vida, de si mesmas, rindo. Mantendo uma distância segura. Rsrs. Você tem certeza de que quer que eu continue? É que não sei como faço pra chegar à parte em que eles se despedem. Porque não parecia que isso ia acontecer. Como fosse invitável, aconteceu, e ficaram aqui e ali lembrando um do outro. Sabe quando você conhece uma pessoa e passa algum tempo, talvez um dia só, pensando nela? E depois passa. Foi assim, passou. Voltaram a levar suas vidas normalmente e não pensaram mais naquela noite.
Alguns dias depois, ele, em meu a seu trabalho, precisou de uns papéis, mas a secretária havia saído, dizendo que voltaria logo, e ele começou a, sozinho, revirar uma gaveta, onde encontrou um cartão seu bem maltratado, com o verso riscado por letras artísticamente trabalhadas, e na falta de esperança de achar os papéis sem a secretária fujona, deteve sua mente a tentar lembrar de quem eram as letras. Se resolveu e ligou pro número pra saber. Um segundo antes de ser atendido, olhou de relance o papel e imaginou que talvez fosse a moça que um segundo depois o atendeu. Primeiro eles ficaram sem ter certeza, e depois ficaram sem saber o que falar, depois pensaram em falar coisas, coisas para as quais talvez fosse cedo demais para serem ditas. Ou que naquele momento não seriam verdade, ou já não seriam tão verdade assim. Mas não eram tão poucas verdades ou auto-mentiras para meias-verdades que os impedissem de tomar um café. Sei que isso é clichê, mas a desculpa é que os dois estavam um pouco constrangidos pela ligação e resolveram desfazer isso, o constrangimento. E também intusiasmados. E talvez, queriam desfazer o intusiasmo. O dele foi grande, aliás, quando aceitou o emprego de secretária da tarde, assim como o constrangimento dela. Não queria parecer que estava com ele ali por segundas intenções, mas pela sim, pelo não, faculdade de jornalismo não se paga sozinha, e o balé não estava lhe tomando tanto tempo assim. Era só organizar direito as coisas. Só que agora ela ficaria sem tempo pra outras. Pra namorar, por exemplo. Mas não se vive apenas de namoro! Ela que o diga, pois já estava a tanto tempo sem alguém que dizia já não ligar mais. Mas há uma diferença entre dizer uma coisa pra si mesmo e dizer uma verdade para si mesmo. Ela gostava mesmo da forma como ele tocava o braço dela ao falar, era natural, e por um segundo pensou em voltar a buscar um namoro. Mas só por um segundo. Agora o assunto era negócios, e a conversa sobre isso era uma fuga disso, pois ele estava atrasado pra um. Olhou no relógio de novo e levou a mão indeciso à gravata, sem saber se o apertava ou folgava. Estavam mesmo conversando, então, pelo sim, pelo não, continuariam. Ela era meio adivinha (meia cigana também, pensava ele), e disse que iria caminhando com ele. No caminho para o carro, ou no carro, ela disse que cuidaria já naquela tarde do que ele estava precisando. Até porque, reunião sem aqueles papéis, sem jeito. Sem jeito ficou ele, de tão grato, e colocou a mão no ombro dela, olhou nos olhos dela sem saber o que dizer e abraçou. Ela não soube bem como retribuir o abraçou e pensou em fazer um curso de abraço, mas gostou do gesto dele. Em sua igreja abraçavam-se muito, mas ali havia gratidão sincera. E convenhamos, uma vontade real de se abraçar.
É interessante como uma coisa leva a outra, mas no final do dia (o que sobrava dele), os dois estavam passando na casa dela. Ele não ia atravessar a cidade toda pra tomar um banho, mas a casa dela era no caminho do restaurante, e eles foram. Ela disse que não ia demorar (mais uma das coisas que dizemos pra nós mesmos, pra não confessar o que queremos realmente fazer), mas daqui a pouco voltou até a porta e pediu pra ele entrar, pois não estava achando uma coisa. Ele hesitou um pouco, mas foi entrando, e ela de um lado pro outro, até que veio caminhando rápido e prendendo o cabelo com uma liga, e perguntou se podiam ir, e quando ele já se virando, ela pediu pra ele esperar só uma outra coisa, e ele se dirigiu até a porta quando ela entrou. Quando ela veio, achando que ele estava com tanta pressa quanto ela, acabou esbarrando nele. Foi assim, na verdade: ele ouviu os passos dela e se virou, de forma que bateu com o ombro nela. Ela disse que não era nada, e não era mesmo, mas ele segurou e levantou o queixo dela pra ver se realmente era só o cabelo que fora bagunçado, ou onde a tinha acertado. Ou não era nada disso, só sei que aí os dois se olharam. Sabe o que é clima?
Agora já falei demais, é a sua vez!
- Ah, sei lá, qualquer coisa...
- Mas, assim... qualquer coisa mesmo?
- Você tem uma boa?
- Agora na verdade eu não tenho...
- Nenhuma? Nenhuma eu não acredito
- Eu tou vivendo uma agora
- Mas essa não vale, porque você não pode contar o final...
- Então eu vou ter que inventar!
- Invente, então.
- Mas, e se eu tiver falando a verdade?
- Então eu nunca saberei.
- Então tá, lá vai!
Se conheceram numa convenção, se não me engano. A moça era jovem e bonita, e estava um pouco perdida ali. Não parecia estar acompanhada. Alguém (não me pergunte quem) veio a apresentou ela ao homem, que usava gravata e tinha um sorriso lindo. Ela o achou bonito na hora, e quando bateu os olhos nos dele e ele nos dela, viram que tinham muito em comum. Ele perguntou de que cidade ela era, e fizeram brincadeiras com o adjetivo pro cidadão derivado da cidade. A noite estava começando a valer a pena. É difícil você encontrar alguém que "case" com você assim tão de cara, então os dois estavam afim de aproveitar o papo, sem ter que dividirem as atenções com terceiros. Então ele saiu e foi buscar outra bebida (pretexto), e ela ficou ali, sem saber como continuar a conversa com pessoas que não sabiam como aquela começara. Ele percebeu a falta de jeito dela e a chamou. Na verdade, não era falta de jeito, era... bom, ela não se sentia tão à vontade quanto com ele. Já ele, não podia deixar transparecer nada, ali não era ocasião. Na verdade, nenhum dos dois. Mas... você sabe o que é um clima? Sabe definir quando começa um? É uma espécie de jogo, e cada um faz tentativas, esperando tais ou quais respostas, mas não é algo com início-meio-e-fim. Um clima é um nome bom para o que estava acontecendo. E uma explicação seria que precisamos de pessoas com certo nível de não-conhecimento, um alguém estranho. E tão estranhos eram que sabiam tão pouco um do outro, mas queriam já sair dali para "reviver os velhos tempos", como antigos amigos de infância. E na verdade, não precisavam se conhecer totalmente, a necessidade de mais informações vem com o tempo, e se for pensar bem, eram apenas duas pessoas conversando, falando da vida, de si mesmas, rindo. Mantendo uma distância segura. Rsrs. Você tem certeza de que quer que eu continue? É que não sei como faço pra chegar à parte em que eles se despedem. Porque não parecia que isso ia acontecer. Como fosse invitável, aconteceu, e ficaram aqui e ali lembrando um do outro. Sabe quando você conhece uma pessoa e passa algum tempo, talvez um dia só, pensando nela? E depois passa. Foi assim, passou. Voltaram a levar suas vidas normalmente e não pensaram mais naquela noite.
Alguns dias depois, ele, em meu a seu trabalho, precisou de uns papéis, mas a secretária havia saído, dizendo que voltaria logo, e ele começou a, sozinho, revirar uma gaveta, onde encontrou um cartão seu bem maltratado, com o verso riscado por letras artísticamente trabalhadas, e na falta de esperança de achar os papéis sem a secretária fujona, deteve sua mente a tentar lembrar de quem eram as letras. Se resolveu e ligou pro número pra saber. Um segundo antes de ser atendido, olhou de relance o papel e imaginou que talvez fosse a moça que um segundo depois o atendeu. Primeiro eles ficaram sem ter certeza, e depois ficaram sem saber o que falar, depois pensaram em falar coisas, coisas para as quais talvez fosse cedo demais para serem ditas. Ou que naquele momento não seriam verdade, ou já não seriam tão verdade assim. Mas não eram tão poucas verdades ou auto-mentiras para meias-verdades que os impedissem de tomar um café. Sei que isso é clichê, mas a desculpa é que os dois estavam um pouco constrangidos pela ligação e resolveram desfazer isso, o constrangimento. E também intusiasmados. E talvez, queriam desfazer o intusiasmo. O dele foi grande, aliás, quando aceitou o emprego de secretária da tarde, assim como o constrangimento dela. Não queria parecer que estava com ele ali por segundas intenções, mas pela sim, pelo não, faculdade de jornalismo não se paga sozinha, e o balé não estava lhe tomando tanto tempo assim. Era só organizar direito as coisas. Só que agora ela ficaria sem tempo pra outras. Pra namorar, por exemplo. Mas não se vive apenas de namoro! Ela que o diga, pois já estava a tanto tempo sem alguém que dizia já não ligar mais. Mas há uma diferença entre dizer uma coisa pra si mesmo e dizer uma verdade para si mesmo. Ela gostava mesmo da forma como ele tocava o braço dela ao falar, era natural, e por um segundo pensou em voltar a buscar um namoro. Mas só por um segundo. Agora o assunto era negócios, e a conversa sobre isso era uma fuga disso, pois ele estava atrasado pra um. Olhou no relógio de novo e levou a mão indeciso à gravata, sem saber se o apertava ou folgava. Estavam mesmo conversando, então, pelo sim, pelo não, continuariam. Ela era meio adivinha (meia cigana também, pensava ele), e disse que iria caminhando com ele. No caminho para o carro, ou no carro, ela disse que cuidaria já naquela tarde do que ele estava precisando. Até porque, reunião sem aqueles papéis, sem jeito. Sem jeito ficou ele, de tão grato, e colocou a mão no ombro dela, olhou nos olhos dela sem saber o que dizer e abraçou. Ela não soube bem como retribuir o abraçou e pensou em fazer um curso de abraço, mas gostou do gesto dele. Em sua igreja abraçavam-se muito, mas ali havia gratidão sincera. E convenhamos, uma vontade real de se abraçar.
É interessante como uma coisa leva a outra, mas no final do dia (o que sobrava dele), os dois estavam passando na casa dela. Ele não ia atravessar a cidade toda pra tomar um banho, mas a casa dela era no caminho do restaurante, e eles foram. Ela disse que não ia demorar (mais uma das coisas que dizemos pra nós mesmos, pra não confessar o que queremos realmente fazer), mas daqui a pouco voltou até a porta e pediu pra ele entrar, pois não estava achando uma coisa. Ele hesitou um pouco, mas foi entrando, e ela de um lado pro outro, até que veio caminhando rápido e prendendo o cabelo com uma liga, e perguntou se podiam ir, e quando ele já se virando, ela pediu pra ele esperar só uma outra coisa, e ele se dirigiu até a porta quando ela entrou. Quando ela veio, achando que ele estava com tanta pressa quanto ela, acabou esbarrando nele. Foi assim, na verdade: ele ouviu os passos dela e se virou, de forma que bateu com o ombro nela. Ela disse que não era nada, e não era mesmo, mas ele segurou e levantou o queixo dela pra ver se realmente era só o cabelo que fora bagunçado, ou onde a tinha acertado. Ou não era nada disso, só sei que aí os dois se olharam. Sabe o que é clima?
Agora já falei demais, é a sua vez!

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