sábado, 7 de junho de 2014

O que eu não quero fazer

- Fazia já algum tempo que não fazíamos algo assim. Mas tudo tem uma explicação, né? Infelizmente...

- Você quer falar sobre esse "infelizmente"?

- É... Acho que a pior coisa do mundo é você fazer o que não quer. A coisa mais difícil, trágica e... chata. Mas precisamos fazer. Rsrs. É uma questão complexa, porque por outro lado a gente quer, se não não faria, que ninguém obriga ninguém. Agora, por outro lado, obriga sim, quer dizer, a gente que se obriga. Se for pensar bem é uma coisa maluca. No final a gente decide fazer ou não, mas é bom saber da nossa vontade real. Porque no final a pessoa tem uma vontade que não sabe que tem, e não faz o que queria fazer. Acaba fazendo o que não quer.

- São reflexões interessantes...

- É, tou filósofa sim. Mas chega de filosofar, que a tarde está uma delícia.

- Você que resolveu ver, mas ela já estava. Porque isso agora? O que mudou?

- Isso? Hahahahaha. Foi pelo que aconteceu ontem, o que eu ia te contando antes...

- Sim?

- Eu fiquei enrolando pra não ir fazer o que eu não queira.

- Algo que eu deva saber?

- Isso não vem ao caso. Não são detalhes sem os quais você não possa viver.

- Certo. Poderemos voltar a isso depois. Vocês ontem tiveram algum diálogo importante?

- Foi. Aí eu me encostei na parede e ficamos um tempão conversando. Acabou que eu me encostei na parede e sentei no chão. Aí ele veio e sentou ao meu lado, depois deitou no meu colo... Oh, foi tão bom! Porque já fazia um tempo que não fazíamos essas coisas. (...) Acho que é o tipo de coisa que a gente... quer.. fazer... Você me dá licensa um instante?

- Sim, claro.

- Pronto. Tinha que checar meus horários pra hoje. Estou sem a gente, então... Saindo daqui vou fazer o que eu não quero, finalmente!

- Parece animada com isso!

- É que descobri uma coisa. As coisas precisam de trocas, eu dou uma coisa pra receber outra, sempre pagamos... eu vivo pagando dívidas... nunca vou terminar, parece...
Acho que devo estar sendo castigada...

- Você está sendo dicotômica! As coisas não são assim: dar e receber. É uma forma de simplificar tudo, mas não funciona de verdade. Você não precisa se cobrar... Digo isso porque o seu único cobrador é você?

- Eu?

- Sim, você. Isso tem te impossibilitado de vivenciar plenamente as coisas que lhe são dadas de graça. Vocês têm um ao outro, isso deveria ser mais do que suficiente. Todavia, você não precisa obrigatoriamente se sentir o tempo todo satisfeita, isso seria uma forma de auto-cobrança. Primeiro você deve abrir um espaço para trabalhar também as emoções negativas entre vocês e para consigo mesma. Mas sem cobranças, entende?

- Acho que sim. Você fala sobre estar bem comigo mesma antes de tudo... por outro lado... Por outro lado eu preciso mesmo ir, fazer o que não quero, sabe?

- Isso é uma cobrança?

- Rsrs. Definitivamente não. É uma escolha mesmo, uma escolha de livre e espontânea vontade! Rsrs.

- Certo. Isso é bom. Mas, voltando o que você não quer fazer...

- Não dá, nosso tempo acabou!

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