Casa, casa, casa,
quem casa quer casa. Quem não casa também quer. As pessoas precisam residir,
sendo isso geralmente em casas. A casa é uma construção civil e nada tem demais
enquanto não se torna um lar. É isso o que se busca quando se busca uma casa: nem
é uma casa, mas um lar.
Foi com esse intuito
que vim parar aqui, modesta e intimidada, mas aberta aos raios de sol, assim
como minhas janelas. As antigas viviam fechadas, como eu bem gostava e gosto e
gostarei, mas desde que eu queira, as abro. Aqui e ali vejo um pardal pulando e
pulando, vindo beber e se banhar. E só
falta uma banheira, porque até as roseiras já tenho. Roseiras incipientes, uma
com flores vermelhas e outra com rosas rosas. Penso em plantar laranjas, mas
não encontro espaço.
Ônibus lotado.
Trânsito parado, engarrafado. Engarrafado como eu, dentro duma lata de sardinha
que balança e me deixa enjoada. Tonta e zonza. Tem também o sono e o cansaço,
que mais do que físico, é mental. Escrever não é moleza, ainda mais sobre o
trânsito, política, ruas, moda, economia, chatice, chatice, chatice, dinheiro,
bolsa de Nova Yorque, bolsa de madame, bolcheviquistas, o aumento do preço do pão e
outras coisitas más. Aí, alguém vem me pedir pra escrever sobre mim, e eu digo
que não, que não quero continuar a escrever sobre tudo isso que citei. Isso
tudo faz parte de mim. Ah, e o trânsito. Esses ônibus parecem umas latas
velhas. Aí eu levo um ano inteiro até chegar em casa, e nem tempo tenho de
curtir o meu aconchego. Recebo uma ligação e não quero sair, prefiro ficar em
casa, assistir a um filme, fazer nada até vir o sono e ulalá, dormir na cama ou
dormir no sofá. Mas essa pessoa que me ligou quer que eu saia do meu mausoléu
de algodão, quer que eu vá pra lá, vá pra cá... E eu não quero. Quero nada
disso não. Não quero receber ordens, nem sugestões, e nem quero trocar uma
idéia - já tenho a minha. Quero dormir, que eu estou com sono. Queria um abraço
também, mas se não tiver, está tudo bem também. Eu disse que não e a tal pessoa
disse que estou ficando renitente.
Renitente é a
vovozinha com renite. A minha casa é antiga, deve ser do século passado da
minha avó. Não sou renitente, só não quero sair hoje. Porque eu tenho que sair
se quero ficar em casa? Em meio a isso, cambeei pro lado, quase caindo do sofá
no chão, comecei a rir e a pessoa riu, um pouco sem graça. Adoro ouvir esse
sorriso. Era disso que eu precisava. Agora sim serei eu a fazer o convite. Mas
sei lá... Vai que... Bom, você vem aqui hoje? Ah, eu sei que tá, mas aí você
dorme aqui. Pois então, melhor ainda, já que estou te convidando pra dormir no
meu confortável sofá-cama Drago. Rsrsrs eu sei que não é, mas confortável ele é
sim. Vem.
Pois então, temos um
pardal, temos o trabalho lá no jornal, temos o sofá e temos a dúvida cruel: o
que fazer com essa combinação de peças, se meu pardal não vem pular por cá?
Apesar de conter os
olhos e aguçar os ouvidos, Fantazo me reclamou e Hipno me carregou. Me vi
digitandp, frente a um teclado indefinido, o que parecia ser o maior texto da
minha vida, e talvez o texto dela toda. Me dando conta, pensei em escrever o
futuro. Mas dele, tudo o que pude imaginar era a laranjeira, e a roseira
incipiente com suas rosas rosas amadurecendo em cor. Saí e me sentei na
calçada, pra olhar o dia passar. E por mais incrívelmente lúdico que parecesse,
me apareceu uma borboleta (ó, sonho campesino!) amarela e preta, namoradeira de
nariz e sumideira assim do nada. Resolvi escrever sobre a tal borboleta.
Acordei com o toque
da campainha. Ao abrir, ninguém estava à porta e me assustei, me deitei e
cochilei. Concluí que fora delírio hípnico. E na preguiça fiquei. Ao me virar,
o esperado, tão, me abraçou, me beijou, me amou, me invadiu e assumiu, acampou-se
em meu peito, esmagou-me as mãos, jogou-me no chão e fez-me abrir a boca e
suspirar, sem saber o que dizer. Suspirei e suspirei, como nunca suspirei, e
sentia que morria e morria cada vez mais, sem medo e sem dor. Só alegria, como
se eu fosse o tal lar e o meu pardal resolvesse vir se banhar no chafariz, com
suas peninhas eriçadas. Não me lembro de mais nada.
E me acordei
perguntando o que fora sonho ou real. Me lembrei de segurar as asas da
borboleta, soltá-la, verificar seu pó em meus dedos e pensar comigo que logo não haveria vestígios dele, como não
havia. E vestígio nenhum havia, exceto a luz ainda mortiça pré-aquecendo a
casa. E aí, é banho, trabalho e luta, saudade, casa, lar, onde o coração
estiver.

4 comentários:
ela nao ja havia comprado a casa????
nao, foi outra pessoa que comprou
finalmente ela comprou a casa!!!
mas eu fiquei sem entender se ela se separou do amante (ou da amante) quando foi embora
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