domingo, 8 de junho de 2014

Casa


Casa, casa, casa, quem casa quer casa. Quem não casa também quer. As pessoas precisam residir, sendo isso geralmente em casas. A casa é uma construção civil e nada tem demais enquanto não se torna um lar. É isso o que se busca quando se busca uma casa: nem é uma casa, mas um lar.

Foi com esse intuito que vim parar aqui, modesta e intimidada, mas aberta aos raios de sol, assim como minhas janelas. As antigas viviam fechadas, como eu bem gostava e gosto e gostarei, mas desde que eu queira, as abro. Aqui e ali vejo um pardal pulando e pulando, vindo beber e se banhar.  E só falta uma banheira, porque até as roseiras já tenho. Roseiras incipientes, uma com flores vermelhas e outra com rosas rosas. Penso em plantar laranjas, mas não encontro espaço.

Ônibus lotado. Trânsito parado, engarrafado. Engarrafado como eu, dentro duma lata de sardinha que balança e me deixa enjoada. Tonta e zonza. Tem também o sono e o cansaço, que mais do que físico, é mental. Escrever não é moleza, ainda mais sobre o trânsito, política, ruas, moda, economia, chatice, chatice, chatice, dinheiro, bolsa de Nova Yorque, bolsa de madame, bolcheviquistas, o aumento do preço do pão e outras coisitas más. Aí, alguém vem me pedir pra escrever sobre mim, e eu digo que não, que não quero continuar a escrever sobre tudo isso que citei. Isso tudo faz parte de mim. Ah, e o trânsito. Esses ônibus parecem umas latas velhas. Aí eu levo um ano inteiro até chegar em casa, e nem tempo tenho de curtir o meu aconchego. Recebo uma ligação e não quero sair, prefiro ficar em casa, assistir a um filme, fazer nada até vir o sono e ulalá, dormir na cama ou dormir no sofá. Mas essa pessoa que me ligou quer que eu saia do meu mausoléu de algodão, quer que eu vá pra lá, vá pra cá... E eu não quero. Quero nada disso não. Não quero receber ordens, nem sugestões, e nem quero trocar uma idéia - já tenho a minha. Quero dormir, que eu estou com sono. Queria um abraço também, mas se não tiver, está tudo bem também. Eu disse que não e a tal pessoa disse que estou ficando renitente.

Renitente é a vovozinha com renite. A minha casa é antiga, deve ser do século passado da minha avó. Não sou renitente, só não quero sair hoje. Porque eu tenho que sair se quero ficar em casa? Em meio a isso, cambeei pro lado, quase caindo do sofá no chão, comecei a rir e a pessoa riu, um pouco sem graça. Adoro ouvir esse sorriso. Era disso que eu precisava. Agora sim serei eu a fazer o convite. Mas sei lá... Vai que... Bom, você vem aqui hoje? Ah, eu sei que tá, mas aí você dorme aqui. Pois então, melhor ainda, já que estou te convidando pra dormir no meu confortável sofá-cama Drago. Rsrsrs eu sei que não é, mas confortável ele é sim. Vem.

Pois então, temos um pardal, temos o trabalho lá no jornal, temos o sofá e temos a dúvida cruel: o que fazer com essa combinação de peças, se meu pardal não vem pular por cá?

Apesar de conter os olhos e aguçar os ouvidos, Fantazo me reclamou e Hipno me carregou. Me vi digitandp, frente a um teclado indefinido, o que parecia ser o maior texto da minha vida, e talvez o texto dela toda. Me dando conta, pensei em escrever o futuro. Mas dele, tudo o que pude imaginar era a laranjeira, e a roseira incipiente com suas rosas rosas amadurecendo em cor. Saí e me sentei na calçada, pra olhar o dia passar. E por mais incrívelmente lúdico que parecesse, me apareceu uma borboleta (ó, sonho campesino!) amarela e preta, namoradeira de nariz e sumideira assim do nada. Resolvi escrever sobre a tal borboleta.

Acordei com o toque da campainha. Ao abrir, ninguém estava à porta e me assustei, me deitei e cochilei. Concluí que fora delírio hípnico. E na preguiça fiquei. Ao me virar, o esperado, tão, me abraçou, me beijou, me amou, me invadiu e assumiu, acampou-se em meu peito, esmagou-me as mãos, jogou-me no chão e fez-me abrir a boca e suspirar, sem saber o que dizer. Suspirei e suspirei, como nunca suspirei, e sentia que morria e morria cada vez mais, sem medo e sem dor. Só alegria, como se eu fosse o tal lar e o meu pardal resolvesse vir se banhar no chafariz, com suas peninhas eriçadas. Não me lembro de mais nada.

E me acordei perguntando o que fora sonho ou real. Me lembrei de segurar as asas da borboleta, soltá-la, verificar seu pó em meus dedos e pensar comigo  que logo não haveria vestígios dele, como não havia. E vestígio nenhum havia, exceto a luz ainda mortiça pré-aquecendo a casa. E aí, é banho, trabalho e luta, saudade, casa, lar, onde o coração estiver.

4 comentários:

Anônimo disse...

ela nao ja havia comprado a casa????

Anônimo disse...

nao, foi outra pessoa que comprou

Anônimo disse...

finalmente ela comprou a casa!!!
mas eu fiquei sem entender se ela se separou do amante (ou da amante) quando foi embora

Anônimo disse...
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