Relatório médico ilegível, só o código do CID pode dizer o que ela tinha.
Tinha ou tem? Não sei. Estava puxando demais, trabalhando demais, exigindo demais de si mesma. Deve ter tido uma fadiga, um stress, um.. um troço. Pode até estar morta a uma hora dessas. Hahahaha. Me desculpe a crueldade, mas eu preciso te falar a verdade, não é? Ou você não quer saber de tudo?
Ela está lá, se ainda estiver viva. Você poderia ir visitá-la, mas não acho uma boa idéia, não. Se eu puder te dar um conselho, deixa pra lá. Se ela já está pra morrer mesmo, deixa morrer. O que você vai ganhar se preocupando? Você tem sua própria vida, não depende dela, ela não está te dando nada, não vale a pena passar nem mesmo uma noite em claro. Calma, na moral, eu só estou falando o que eu penso. É por amizade a você que eu te digo a verdade do que eu penso. A gente não pode salvar todo mundo. Let it go, let it be. Ela não precisa disso, de sua preocupação. Isso não vai ajudá-la a melhorar mais rápido, se ainda estiver viva. Aliás, nada vai, você não tem muito o que fazer. Não vai adiantar estar perto. É, você nem mesmo pode estar perto, você não pode nada. É triste que ela esteja sozinha numa hora dessas, não é? Mas deixa, foi o caminho que ela mesma escolheu, ninguém pode fazer nada. Deixa ela se virar, no final, acaba tudo sendo como tem que ser mesmo. Quem é você pra fazer alguma coisa? Nem heroísmo nem piedade, nem amor nem amizade, nem nada, na verdade, faz tanta diferença assim. Quando chega a hora, chega a hora, não tem muito porque você ficar assim, não adianta querer estar perto, vai por mim. Eu já te disse, não já? É trabalho perdido o teu. A gente tem que se preocupar é com quem está aqui ainda, com quem está vivo, e deixa os outros pra lá, cada um sabe de si. Ela não decidiu ir? Ninguém obrigou. Pois pronto! Ninguém aqui é criança, não. Você sabe que eu tenho razão. E no fundo… não, nada. Sei lá, é só que… no fundo, você não quer participar disso. Sua bondade não pode ser desintencionada assim. Você não teve essa santidade antes, por que teria agora? Você quer ir, vá. Você sabe dos riscos que vai correr. Sei nem se ela vai querer te ver, quando acordar. Você também não esteve por perto quando ela precisou. O que você quer agora? Recuperar o tempo perdido? Retomar a coisa de onde parou? Remoer os velhos ziguezagues? Sai dessa. Ela tomou uma decisão. Meio suicida, eu concordo, mas tomou, e a gente deixou, não foi? Se ainda fosse antes, eu era a primeira pessoa a correr lá pra ajudar, mas ela não quer mais ajuda de ninguém, quer mais é nada. Está bancando a fortinha, a independente? Ótimo, ela que se vire só. Eu falei dos riscos, da responsabilidade, das consequências, das perdas inevitáveis, você também. E agora está aí, vai e não vai, morre e não morre. Eu quero mais é sossega pra minha cabeça. E tem mais, vou lhe dizer logo: ela já estava morta antes de morrer. Não adianta ficar com raiva, você já entendeu que bem pode ser verdade que ela tenha morrido. Defunta e pronto. Vai deixar nada, só lembranças, e mesmo assim, em pouca gente, que nem era todo mundo aqui que gostava dela. Tanto que ninguém correu a ajudar semana passada, e não vão agora também. Lá é uma terra de gente má, você sabe. Agora, enxuga essas lágrimas e vamos comer, por favor. Eu me cansei disso tudo.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
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