Tchan-ran! Aqui está o bloquinho de sempre da bolsa, caneta, e a mão pra escrever. Agora ele dorme e senti vontade de falar. Falar do amor, de algumas coisas que eu tava aqui pensando. Talvez tenha esquecido algumas, ou esqueça, então vou pensando e escrevendo, sem refletir muito nas palavras.
É como uma ocasião em que vi um grupo de pessoas fazendo festa de carnaval em homenagem ao seu bairro, eles diziam amar o bairro. Não gosto de patriotismo, acho toda espécie de idolatra uma besteira, uma transferência da realização que a gente devia ter consigo para o objeto idolatrado. Acabando num fanatismo, a pessoa fica cega, não vê o resto, fere os outros... porque quem ganha costuma humilhar quem perde. E o perdedor raramente aceita ter perdido, quer revanche, cria justificativas, apela... maturidade... aquelas pessoas não eram fanáticas, mas tinham uma paixão, um amor que me impressionou. Por um bairro!
E aí eu tava aqui deitada, acariciando ele, pensando no quanto eu o amo, como aquele grupo de carnaval, que compunha marchinhas próprias. Nós também temos a nossa canção, feita de sussurros e respirações. Primeiro pensei nos bairros e nas pessoas que não têm quem as ame... coitadas... eu poderia amá-las, que tenho muito amor em mim. Mas alguém há de morar nesses bairros e amá-los de sua forma, sem estardalhaço, mas não menos sinceramente, ou talvez mais. Depois pensei o que seria das canções se eles morassem nesses bairros. Seriam outras canções, mas seriam tão bonitas ou tão verdadeiras? Seriam necessárias? Existiriam? Talvez quem ama a química, amaria também a física se não existisse a química. Amamos por escolha, nós escolhemos um objeto por suas singularidades, ou talvez não seja uma escolha, é um magnetismo, uma lei, que diz que o objeto 0010 só encaixará no objeto 1101. Mas... haverá apenas um de cada no universo? Porque hoje eu digo que amo alguém, faço de tudo pela pessoa, e amanhã acontece algo, ela morre, ela vai embora, ela me trai, ela me esquece, eu não a amo mais. E nem por isso menti quanto disse amar. A gente pode também amar e não estar com a pessoa. Aparece gente nova em nossa vida, mas a pessoa que se foi não fez nada pra deixarmos de gostar dela. Só falta de cultivo, já que a distância... nem distância, na verdade. Eu o amo porque ele me compreende, se encaixa em mim, a intimidade que temos levaria muito tempo e esforço pra ser construída com outrem, e ele chegou num momento em que eu precisava, em que não havia ninguém que cumprisse esse papel. Mas se tivesse sido outra pessoa a vir antes dele, se eu desse, tivesse dado chance a outra pessoa, eu a amaria de todo meu coração. E se chegar outra pessoa depois, também vou amar. Essa coisa de almas gêmeas... haver apenas uma pessoa pra cada uma outra no mundo... Estou pensando no planeta redondo, cheio de gente, como formiguinhas ao redor de uma bola de açúcar. Cada uma lambe seu açúcar e algumas resolvem ficar onde ele está. Se houvesse apenas uma pessoa, onde estaria? Quando eu saberia que era ela? Porque a gente sempre acha que encontrou a pessoa perfeita, que conhece os seus pensamentos todos, que pode confiar sem medo e sem reservas, que pode dar tudo. Então, eu posso até deixá-lo um dia, mas não sei se o deixarei de amar, mesmo que eu encontre outrem. E continuo amando as pessoas de quem não me lembro, das outras vidas, as que passam por mim nas ruas, cada mendigo, cada bairro, cada criança cujos pais não abraçam, todos os deprimidos e desiludidos, todos os carnavaleiros otimistas, todos eles merecem amor, todos mereceriam que eu ficasse ao lado deles na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Não seria certo ser egoísta com a humanidade. Mas Com uma pessoa eu haveria de me identificar mais, e eu daria um nome especial, faria uma composição... E continuaria amando quem eu já amava, só que cada um amor teria uma forma de expressão. Uma pessoa eu amaria com conselhos e ouvindo ela, outra, com meu trabalhos, meus serviços, pra outra eu seria como uma mãe, uma irmã, uma eu chamaria de pai, e outra eu dormiria ao lado, na minha cama.
Melhor apagar a luz pra não incomodar seu sono.
Quem ama é abençoado. Quem descobriu que dentro de si existe amor, é feliz. Mas quem não se sente amado... ou amada. As mulheres que estão longe de marido... coitadas. Mas cada um com sua dor, antes ficar feliz por quem está do que triste por quem se considera. Eu despertei o meu amor, sou feliz. E vou dormir.
domingo, 8 de junho de 2014
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Um comentário:
parece que leu minha mente!
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