Confesso que tenho um pouco de grafomania sim, como devem ter as pessoas que "têm" tanto juízo quanto eu. É bom pra desabafar meu desgosto de/em não poder passear por aí desde que aconteceu.
Tenho certeza de que abri os olhos, mas a cabeça doía e tive que fechar, ou, se estavam mesmo abertos, eu não enxergava de verdade. Então fechei os olhos, mas a imagem se fixou na minha mente e comecei a me perguntar sobre o que vi: era um teto de hospital? Eu estava num leito? Soube quando ouvi o som de uma enfermeira andando pelo quarto, anotando coisas numa prancheta, acho que sobre meu despertar. Logo em seguida entrou outra enfermeira, de cabelos profundamente lisos e sem brilho, e saiu depois de trocarem duas frases que não pude entender.
Quando ele entrou, eu não sabia se o conhecia, mas sentia como se, e temi que tivesse perdido a memória. Tentei falar, mas estava cansada demais e quase não notei que não tinha o que falar e que uma palavra sequer saíra de meus lábios ociosos. Ele me parecia familiar, como se o conhecesse desde a infância, mas o seu rosto era também uma novidade. Parecia preocupado, mas sua presença me deixou calma. Dava pra notar que estava alegre, mas contido, talvez ainda sem saber o que fazer, assim como eu. Ficou me olhando um pouco, e depois que ele saiu, comecei a olhar as nuvens. Minhas pernas doíam... eram nuvens muito parecidas com essas de agora. Brancas, leves... sinto inveja delas, que são livres, que não estão presas, que passam tão desapercebidamente, que nem a dor nem a alegria percebem, e assim podem ser completas, da forma delas. Mal sabem que irão se dissipar... As nuves de agora já são outras, apesar de deslizarem lentamente pelas águas acimas dos céus. Essas podem parecer o que eu quiser, mas sempre saberei que aquelas outras estiveram ali. Nunca me esquecerei delas. Ele começou a explicar que dirigia muito rápido, e só parou de se justificar quando se cansou de teimar em assumir n/o que sua gentileza não lhe permitia ter dolo. Seu olhar era bondoso, era o que me importava.
Quando ele me levou pela primeira vez ao apartamento, não pude notar muita coisa. O lugar parecia limpo e inabitado há tempos; a luz do sol entrava branca e sem pedir licença, pelas janelas escancaradas; era espaçoso, tudo era grande, tudo podia ser grande, ser perfeito, a sala podia ser linda, e nem quero falar das fotos nos porta-retratos, que eu não queria olhar. Eu só puder ver uma coisa: o piano à minha frente. Era realmente um piano de calda, imenso, pré-histórico, como o leão em que a menina monte aos oito anos. De repente o mundo parou, e eu parei de respirar, em respeito a ele. Me aproximei devagar, no que parecia uma eternidade, por mais rápido que eu viesse a andar. Nos olhamos... eu sorri sem saber que sorria, e sem saber que tocava com as pontas dos dedos, que acariciava em saltos as teclas pretas... tudo nele transparecia ser grande, operístico, e carente. Me surpreendi um instante ao notar que não ouvia som algum, e depois me assustei quando o dedo médio fez soar a primeira nota. Estava estabelecido o primeiro contato, mas ainda suspeitava de que ele poderia morder minha mão...
Todas as tardes eu ficava ansiosa para vê-lo, me comunicar com ele, saber o que ele tinha de novo. Era como uma voz vinda de outro universo, que se misturava à minha. Eu não compreendia realmente aqueles sons, apenas ficava enlevada, como ter um filho pela primeira vez, como cumprimentar o dia e a noite chegando, como tocar o paraíso amando de verdade, em vinte segundos de prazer eterno. Eu me sentia viva, cada nota trespassando cada fibra de meu ser, cada molécula de meu perispírito... ali residiam todas as emoções, todo o conhecimento da humanidade, todo o amor, toda o beleza, todo o bem, tudo de bom, tudo. Um dia cheguei até mesmo a ouvir a frase "minha doce pianista." Foi a melodia mais bela que já ouvi.
Uma noite ele me levou a um parque, ou circo, não me lembro bem. Havia muita gente, e devo ter visto uns dois ou três conhecidos, mas não havia outra pessoa em quem eu quizesse me aprofundar. Compramos algodão doce e depois nos centamos, olhando as pessoas passarem. Vi uma felicidade nelas, radiante, como se eu pudesse participar das coisas boas que haviam acontecido no dia de cada uma. E o seu número se estendia ao infinito, até o horizonte, até onde minha vista alcançava, e tudo o mais era o céu. No céu límpido, as estrelas pareciam finalmente acordar em formar constelações. Eu não sentia o perfume das pessoas, apenas respirava a pureza do ar bom e fresco. Na minha imaginação, há um mundo quase infinito, onde adoro mergulhar, e ficar como aquela noite: aproveitando sem pressa os momentos de gozo da alma. No pensamento somos livres, como as nuvens, iogues. As coisas podem ser tão ou mais verdadeiras que na realidade, tudo de bom ou de ruim pode acontecer. O algodão doce parecia feito de nuvens, feito de amém; eu me sentia realmente nas nuvens, e meu cobertor devia ser bordado de estrelas. Me lembro de olhar para elas e perguntar se estariam vendo a minha felicidade e alegria. As convidei para tomar parte e me senti agraciada, visitada, quando uma delas caiu, tentando vir até mim, até meu reino dos céus. Me apressei em desejar que minha vida inteira fosse sempre aquele contentamento lancinante de eflúvios. Depois desejei ter saúde física para poder aprovetar as dádivas e...
Eu já te contei do acidente?
Sabe, tenho pensado muito, ultimamente, no conto do sábio chinês.
Tenho certeza de que abri os olhos, mas a cabeça doía e tive que fechar, ou, se estavam mesmo abertos, eu não enxergava de verdade. Então fechei os olhos, mas a imagem se fixou na minha mente e comecei a me perguntar sobre o que vi: era um teto de hospital? Eu estava num leito? Soube quando ouvi o som de uma enfermeira andando pelo quarto, anotando coisas numa prancheta, acho que sobre meu despertar. Logo em seguida entrou outra enfermeira, de cabelos profundamente lisos e sem brilho, e saiu depois de trocarem duas frases que não pude entender.
Quando ele entrou, eu não sabia se o conhecia, mas sentia como se, e temi que tivesse perdido a memória. Tentei falar, mas estava cansada demais e quase não notei que não tinha o que falar e que uma palavra sequer saíra de meus lábios ociosos. Ele me parecia familiar, como se o conhecesse desde a infância, mas o seu rosto era também uma novidade. Parecia preocupado, mas sua presença me deixou calma. Dava pra notar que estava alegre, mas contido, talvez ainda sem saber o que fazer, assim como eu. Ficou me olhando um pouco, e depois que ele saiu, comecei a olhar as nuvens. Minhas pernas doíam... eram nuvens muito parecidas com essas de agora. Brancas, leves... sinto inveja delas, que são livres, que não estão presas, que passam tão desapercebidamente, que nem a dor nem a alegria percebem, e assim podem ser completas, da forma delas. Mal sabem que irão se dissipar... As nuves de agora já são outras, apesar de deslizarem lentamente pelas águas acimas dos céus. Essas podem parecer o que eu quiser, mas sempre saberei que aquelas outras estiveram ali. Nunca me esquecerei delas. Ele começou a explicar que dirigia muito rápido, e só parou de se justificar quando se cansou de teimar em assumir n/o que sua gentileza não lhe permitia ter dolo. Seu olhar era bondoso, era o que me importava.
Quando ele me levou pela primeira vez ao apartamento, não pude notar muita coisa. O lugar parecia limpo e inabitado há tempos; a luz do sol entrava branca e sem pedir licença, pelas janelas escancaradas; era espaçoso, tudo era grande, tudo podia ser grande, ser perfeito, a sala podia ser linda, e nem quero falar das fotos nos porta-retratos, que eu não queria olhar. Eu só puder ver uma coisa: o piano à minha frente. Era realmente um piano de calda, imenso, pré-histórico, como o leão em que a menina monte aos oito anos. De repente o mundo parou, e eu parei de respirar, em respeito a ele. Me aproximei devagar, no que parecia uma eternidade, por mais rápido que eu viesse a andar. Nos olhamos... eu sorri sem saber que sorria, e sem saber que tocava com as pontas dos dedos, que acariciava em saltos as teclas pretas... tudo nele transparecia ser grande, operístico, e carente. Me surpreendi um instante ao notar que não ouvia som algum, e depois me assustei quando o dedo médio fez soar a primeira nota. Estava estabelecido o primeiro contato, mas ainda suspeitava de que ele poderia morder minha mão...
Todas as tardes eu ficava ansiosa para vê-lo, me comunicar com ele, saber o que ele tinha de novo. Era como uma voz vinda de outro universo, que se misturava à minha. Eu não compreendia realmente aqueles sons, apenas ficava enlevada, como ter um filho pela primeira vez, como cumprimentar o dia e a noite chegando, como tocar o paraíso amando de verdade, em vinte segundos de prazer eterno. Eu me sentia viva, cada nota trespassando cada fibra de meu ser, cada molécula de meu perispírito... ali residiam todas as emoções, todo o conhecimento da humanidade, todo o amor, toda o beleza, todo o bem, tudo de bom, tudo. Um dia cheguei até mesmo a ouvir a frase "minha doce pianista." Foi a melodia mais bela que já ouvi.
Uma noite ele me levou a um parque, ou circo, não me lembro bem. Havia muita gente, e devo ter visto uns dois ou três conhecidos, mas não havia outra pessoa em quem eu quizesse me aprofundar. Compramos algodão doce e depois nos centamos, olhando as pessoas passarem. Vi uma felicidade nelas, radiante, como se eu pudesse participar das coisas boas que haviam acontecido no dia de cada uma. E o seu número se estendia ao infinito, até o horizonte, até onde minha vista alcançava, e tudo o mais era o céu. No céu límpido, as estrelas pareciam finalmente acordar em formar constelações. Eu não sentia o perfume das pessoas, apenas respirava a pureza do ar bom e fresco. Na minha imaginação, há um mundo quase infinito, onde adoro mergulhar, e ficar como aquela noite: aproveitando sem pressa os momentos de gozo da alma. No pensamento somos livres, como as nuvens, iogues. As coisas podem ser tão ou mais verdadeiras que na realidade, tudo de bom ou de ruim pode acontecer. O algodão doce parecia feito de nuvens, feito de amém; eu me sentia realmente nas nuvens, e meu cobertor devia ser bordado de estrelas. Me lembro de olhar para elas e perguntar se estariam vendo a minha felicidade e alegria. As convidei para tomar parte e me senti agraciada, visitada, quando uma delas caiu, tentando vir até mim, até meu reino dos céus. Me apressei em desejar que minha vida inteira fosse sempre aquele contentamento lancinante de eflúvios. Depois desejei ter saúde física para poder aprovetar as dádivas e...
Eu já te contei do acidente?
Sabe, tenho pensado muito, ultimamente, no conto do sábio chinês.

Um comentário:
Thanks :)
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