1. Antônia senta-se
na praça e apoia-se no banco com as duas mãos para trás. Ela parece relaxada,
chega a fechar os olhos, talvez para melhor sentir o sol no rosto. De vez em
quando olha no relógio, mas não parece preocupada com a hora; é como se fosse um
hábito. Chama um vendedor de picolés
(ela parece gostar muito de picolé) e compra dois. Uma criança mal-vestida e
pobre passa com a mãe, ela dá o picolé à criança, diz alguma coisa à mulher,
que lhe aperta a mão e passa. Hoje ela não tira caderninho ou caneta da bolsa,
apenas se senta e cruza as pernas. Parece cantar. Brinca com folhas da árvore
ao lado caídas no banco. Por um momento, parece dormir. Tão despreocupada
assim, não seria de admirar que cochilasse. Ao lado, uma discussão entre dois
homens se inicia, mas ela apenas vira a cabeça pra olhar e logo volta a se
concentrar em seus pensamentos, a cabeça abaixada, as mãos no colo. Mexe no
cabelo que o vento forte desarruma, mas não parece preocupada em caprichar. Um
idoso chega, senta ao seu lado e tenta puxar assunto, mas ela não o conhece,
não lhe dá muita atenção; logo outro velho chega, conversam em voz alta, ela
parece se incomodar, mas os homens saem. Um inseto a pica. Mexe na bolsa e tira
dela um repelente; depois de passá-lo, ajeita o cachecol (ou será lenço)? Não
parece estar esperando ninguém. Se espreguiça, tentando disfarçar. Procura com
os olhos o homem do sorvete, depois fica olhando-o. Em seguida, pega a bolsa,
se levanta e sai.
2. Às vezes
desejamos certas coisas que, quando realizadas,vemos que não são bem o que
desejamos. Achoque comigo foi assim. Uma decepção. Não uma decepção, mais
uma... eu já estava esperando, eu torcia, mas sabia que podia não ser tão bom.
No fundo, eu sabia. Quer dizer, achava. Mas a gente tem que arriscar, afinal.
É... não me arrependo de ter arriscado, foi até bom. Se eu não tivesse
arriscado, nunca saberia, ia passar a vida me perguntando. É melhor viver que
ficar pensando, mas quando as experiências não são tão boas quanto na idéia da
gente. Se bem que tem coisas que são. Esse emprego novo, por exemplo... era
tudo que eu precisava. Atévoltei a sentir meus pés formigarem, isso sim é
prazer, sim senhora! Ê, coisa boa! E aposto que nem tem a ver com o prazer, no
fim das contas, deve ser psicológico, como dizem, a... carga mental? Como é que
diz? O arquétipo, a representação, é isso: é mais o que significa pra mim.
Estou me realizando, rsrs, como se eu tivesse um potencial, e ele tivesse que
inevitavelmente ser despertado - e desejadamente. Acho que já vivi muito pra
saber o que é certo e o que é errado, o que é bom ou não, e o que vale a pena.
Mas se eu não vivesse, ficaria desejando ter tentado, me perguntando como
seria. Como Deus é bom comigo por me deixar errar - obrigada, Deus! - e como eu
sou... má. Má, por ficar me torturando, má comigo mesma, e isso é o pior de
tudo, porque ninguém pode me defender, é até injusto, e eu preciso começar a
ser justa comigo mesma... admitir meus desejos... admitir essa sede, ai que
sede! deve ter sido o picolé, mas tava tão gostoso, se eu chupar outro ficarei
com mais sede? cadê o vendedor, ah... tá muito longe. Sinal de que o outro
picolé não era pra mim, mesmo. Mas também, um, dois, tanto faz, todos são picolés,
são unos, um já é o bastante mesmo. Taí, estou aprendendo a me contentar. Deve
ser porque eu vivia buscando... mas tem certas coisas que não estão dentro da
gente, no fim das contas. Nem tudo pode ser buscado dentro de nós mesmos. Já me
esqueci do que eu tava pensando antes do picolé. Melhor eu aviar e ir-me embora
logo
3. Que será que ela
está fazendo agora? Eu não devia ficar me preocupando, ela já é bem grandinha,
mas eu me preocupo. Ah!, eu sou mesmo assim e pronto! E também, é preciso: quem
sabe onde ela está agora? Se metendo em confusões do barulho, conhecendo gente
nova e perigosa, lamentando talvez - coitada! Deve estar sozinha agora! Vendo
televisão, na certa! Se entediando mais do que eu - eu me entedio porque fico
me preocupando à toa, é que nem novela, se eu vivesse a minha vida, não iria
ficar me preocupando com a vida alheia. Se bem que ela tem juízo. E alguma
maturidade, também, ela tem. Quanto será que ela está pagando? Se ela estiver
tendo problemas com dinheiro, não vai dizer nada, é orgulhosa, vai descobrir
uma maneira, ela sempre descobre, eu já saquei como ela é, quando decide, vai
fundo. Talvez eu devesse ligar pra ela. Ou não, melhor deixar ela viver em paz,
ela que me ligue, se quiser. Se bem que já era hora, ela já devia ter ligado.
Mas tudo bem, deve estar ocupada. E isso é bom, não é? Quer dizer, ela deve
estar se ocupando muito, deve estar correndo de um lado pro outro, sem tempo,
aposto que nem tem tempo pra descansar. Coitada! Ela precisa de um descanso,
trabalha demais... não sei como agüenta, e não sei pra quê, não se enrica
trabalhando mesmo. Se bem que ela tem seus motivos. Vai morrer de estafa, um
dia! Eu podia cozinhar uma massa pra gente, ligar pra ela, pra ver se ela tira
um tempinho pra relaxar, será que anda comendo direito?

3 comentários:
coitada da amiga
ainda se preocupa com a amiga depois que a amiga foi embora
no segundo texto sao os pensamentos dela
de quem eh o primeiro texto???!
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