domingo, 8 de junho de 2014

Domingo no parque


1. Antônia senta-se na praça e apoia-se no banco com as duas mãos para trás. Ela parece relaxada, chega a fechar os olhos, talvez para melhor sentir o sol no rosto. De vez em quando olha no relógio, mas não parece preocupada com a hora; é como se fosse um hábito. Chama um vendedor de  picolés (ela parece gostar muito de picolé) e compra dois. Uma criança mal-vestida e pobre passa com a mãe, ela dá o picolé à criança, diz alguma coisa à mulher, que lhe aperta a mão e passa. Hoje ela não tira caderninho ou caneta da bolsa, apenas se senta e cruza as pernas. Parece cantar. Brinca com folhas da árvore ao lado caídas no banco. Por um momento, parece dormir. Tão despreocupada assim, não seria de admirar que cochilasse. Ao lado, uma discussão entre dois homens se inicia, mas ela apenas vira a cabeça pra olhar e logo volta a se concentrar em seus pensamentos, a cabeça abaixada, as mãos no colo. Mexe no cabelo que o vento forte desarruma, mas não parece preocupada em caprichar. Um idoso chega, senta ao seu lado e tenta puxar assunto, mas ela não o conhece, não lhe dá muita atenção; logo outro velho chega, conversam em voz alta, ela parece se incomodar, mas os homens saem. Um inseto a pica. Mexe na bolsa e tira dela um repelente; depois de passá-lo, ajeita o cachecol (ou será lenço)? Não parece estar esperando ninguém. Se espreguiça, tentando disfarçar. Procura com os olhos o homem do sorvete, depois fica olhando-o. Em seguida, pega a bolsa, se levanta e sai.

2. Às vezes desejamos certas coisas que, quando realizadas,vemos que não são bem o que desejamos. Achoque comigo foi assim. Uma decepção. Não uma decepção, mais uma... eu já estava esperando, eu torcia, mas sabia que podia não ser tão bom. No fundo, eu sabia. Quer dizer, achava. Mas a gente tem que arriscar, afinal. É... não me arrependo de ter arriscado, foi até bom. Se eu não tivesse arriscado, nunca saberia, ia passar a vida me perguntando. É melhor viver que ficar pensando, mas quando as experiências não são tão boas quanto na idéia da gente. Se bem que tem coisas que são. Esse emprego novo, por exemplo... era tudo que eu precisava. Atévoltei a sentir meus pés formigarem, isso sim é prazer, sim senhora! Ê, coisa boa! E aposto que nem tem a ver com o prazer, no fim das contas, deve ser psicológico, como dizem, a... carga mental? Como é que diz? O arquétipo, a representação, é isso: é mais o que significa pra mim. Estou me realizando, rsrs, como se eu tivesse um potencial, e ele tivesse que inevitavelmente ser despertado - e desejadamente. Acho que já vivi muito pra saber o que é certo e o que é errado, o que é bom ou não, e o que vale a pena. Mas se eu não vivesse, ficaria desejando ter tentado, me perguntando como seria. Como Deus é bom comigo por me deixar errar - obrigada, Deus! - e como eu sou... má. Má, por ficar me torturando, má comigo mesma, e isso é o pior de tudo, porque ninguém pode me defender, é até injusto, e eu preciso começar a ser justa comigo mesma... admitir meus desejos... admitir essa sede, ai que sede! deve ter sido o picolé, mas tava tão gostoso, se eu chupar outro ficarei com mais sede? cadê o vendedor, ah... tá muito longe. Sinal de que o outro picolé não era pra mim, mesmo. Mas também, um, dois, tanto faz, todos são picolés, são unos, um já é o bastante mesmo. Taí, estou aprendendo a me contentar. Deve ser porque eu vivia buscando... mas tem certas coisas que não estão dentro da gente, no fim das contas. Nem tudo pode ser buscado dentro de nós mesmos. Já me esqueci do que eu tava pensando antes do picolé. Melhor eu aviar e ir-me embora logo

3. Que será que ela está fazendo agora? Eu não devia ficar me preocupando, ela já é bem grandinha, mas eu me preocupo. Ah!, eu sou mesmo assim e pronto! E também, é preciso: quem sabe onde ela está agora? Se metendo em confusões do barulho, conhecendo gente nova e perigosa, lamentando talvez - coitada! Deve estar sozinha agora! Vendo televisão, na certa! Se entediando mais do que eu - eu me entedio porque fico me preocupando à toa, é que nem novela, se eu vivesse a minha vida, não iria ficar me preocupando com a vida alheia. Se bem que ela tem juízo. E alguma maturidade, também, ela tem. Quanto será que ela está pagando? Se ela estiver tendo problemas com dinheiro, não vai dizer nada, é orgulhosa, vai descobrir uma maneira, ela sempre descobre, eu já saquei como ela é, quando decide, vai fundo. Talvez eu devesse ligar pra ela. Ou não, melhor deixar ela viver em paz, ela que me ligue, se quiser. Se bem que já era hora, ela já devia ter ligado. Mas tudo bem, deve estar ocupada. E isso é bom, não é? Quer dizer, ela deve estar se ocupando muito, deve estar correndo de um lado pro outro, sem tempo, aposto que nem tem tempo pra descansar. Coitada! Ela precisa de um descanso, trabalha demais... não sei como agüenta, e não sei pra quê, não se enrica trabalhando mesmo. Se bem que ela tem seus motivos. Vai morrer de estafa, um dia! Eu podia cozinhar uma massa pra gente, ligar pra ela, pra ver se ela tira um tempinho pra relaxar, será que anda comendo direito?

3 comentários:

Anônimo disse...

coitada da amiga
ainda se preocupa com a amiga depois que a amiga foi embora

Anônimo disse...

no segundo texto sao os pensamentos dela

Anônimo disse...

de quem eh o primeiro texto???!